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Posto Ipiranga não consegue abastecer a si mesmo de meio litro de bom senso

Wallace Martins/Futura Press/Estadão Conteúdo
Imagem: Wallace Martins/Futura Press/Estadão Conteúdo
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

13/02/2020 01h46

Chamado de Posto Ipiranga, Paulo Guedes ainda não conseguiu abastecer Jair Bolsonaro de conhecimentos básicos sobre economia. Mas assimilou rapidamente um hábito deplorável do chefe. A exemplo do presidente, o ministro da Economia passou a falar dez vezes antes de pensar. Quando a pessoa não pensa no que diz, acaba dizendo o que realmente pensa.

Ao celebrar a mistura de juros baixos com dólar alto como o novo normal da economia brasileira, o ministro soou adequado enquanto se manteve na seara técnica. Realçou, por exemplo, que o câmbio valorizado impulsiona as exportações brasileiras. Tropeçou na língua, porém, ao tentar trocar seu pensamento em miúdos.

"Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada", ralhou Paulo Guedes. "Pera aí. Vai passear ali em Foz do Iguaçu, vai passear ali no Nordeste, está cheio de praia bonita."

O ministro oscilou entre a logorreia, que é a compulsão para falar demais, e a demofobia, que é a aversão ao povo. Coisa decepcionante e inútil. Decepciona porque esperava-se de Paulo Guedes que funcionasse como contraponto sensato aos arroubos de Bolsonaro. É inútil porque as empregadas domésticas que conseguem salvar o emprego ralam duro para encher a geladeira, não para visitar o Mickey Mouse.

Na semana passada, o ministro havia comparado, em timbre genérico, servidores públicos a "parasitas". A péssima repercussão levou-o a pedir desculpas. Alegou que o comentário fora retirado de contexto pelos jornalistas. Lorota. Nas pegadas do sincericídio, subiu no telhado a reforma administrativa. Bolsonaro resiste em enviar uma proposta do governo ao Congresso.

Nesta quarta-feira, Paulo Guedes enfiou as domésticas em sua prosa ao discursar num seminário, em Brasília. A certa altura, declarou: "Não estou ligando muito para os maus modos do presidente, eu tenho maus modos também, vivo falando besteira. A forma a gente erra, mas o importante é o conteúdo."

Pode-se até tolerar a besteira. O difícil é aceitar quem se orgulha dela. É uma pena. Mas o Posto Ipiranga já não consegue abastecer nem a si mesmo de meio litro de bom senso.

Josias de Souza