PUBLICIDADE
Topo

Moro: Lava Jato, impeachment e eleição de Bolsonaro são fatos dissociados

(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Imagem: (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

16/02/2020 05h10

Sergio Moro construiu uma visão peculiar da história recente do país. Para ele, não há conexão entre a Lava Jato, o impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro. A opinião do ministro da Justiça foi revelada numa "entrevista" que concedeu ao deputado Eduardo Bolsonaro, o filho Zero Três do presidente.

"São fatos que não têm uma concatenação. A Lava Jato, juntamente com a questão do impeachment e a eleição do presidente Jair Bolsonaro são movimentos que foram distintos. Claro que existe um contexto no qual o presidente foi eleito, mas o impeachment não tem nada a ver com a eleição do presidente Jair Bolsonaro. São coisas dissociadas."

Moro fez tais considerações no instante em que o filho do chefe instou-o a comentar o documentário 'Democracia em Vertigem', da cineasta Petra Costa. "Beira a ficção", disse Eduardo Bolsonaro, ao perguntar se Moro assistira ao filme. O ministro disse ter visto a peça depois que foi indicada para o Oscar. Ecoando o "entrevistador", afirmou que o documentário traz uma "visão muito deturpada" dos fatos.

"A diretora no começo é bastante honesta, aponta: 'Olha eu sou [...] muito simpática ao Partido do Trabalhadores, Lula é meu herói'. Então, fica muito claro que ela tem uma perspectiva [...]. Para um documentário, acho que presta realmente um desserviço aos fatos porque é uma visão muito deturpada daqueles acontecimentos."

Moro prosseguiu: "O impeachment e a própria Lava Jato tiveram um maciço apoio da população brasileira, inclusive as maiores demonstrações de massa, de rua, desde as Diretas-Já. As pessoas contra, não vou dizer contra o governo da presidente, contra um sistema de corrupção muito forte. E isso fica muito escondido no filme e passa, a meu ver, para as pessoas de fora uma visão errada sobre o Brasil. Mas, como eu disse, pelo menos tem aquele começo que deixa claro onde a cineasta se posiciona."

Graças à providência divina, Moro não é documentarista. Se fosse, precisaria imitar Petra Costa, avisando na abertura de um hipotético documentário que possui uma visão "deturpada" dos fatos. O filme que Moro jamais produzirá sonegaria ao expectador o fato de que o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, levou o impeachment de Dilma ao forno depois que foi cercado pela Lava Jato.

Cunha tentou articular com o PT e com a própria Dilma uma operação do tipo uma mão suja a outra. Mas a força tarefa de Curitiba ganhara vida própria. Escorava-se naquilo que o próprio Moro chamou de "maciço apoio da população brasileira."

O documentário que o ex-juiz não fará sonegaria aos brasileiros que fossem às salas de cinema os óbvios liames entre a Lava Jato e a deposição de Dilma. A presidente petista apertou o nó em volta do próprio pescoço ao pedalar o Orçamento da República. Mas o impeachment levado à pauta por Eduardo Cunha não teria prosperado se o asfalto, assombrado com a deterioração da oligarquia política e empresarial, não tivesse roncado.

Um eventual filme de Moro passaria batido pela evidência de que o mandato presidencial de Michel Temer, no instante em que esteve pendurado numa decisão do Tribunal Superior Eleitoral, só não foi interrompido porque um arranjo político-institucional arquivou por excesso de provas o pedido de cassação da chapa Dilma-Temer. A manobra foi escancarada pelas evidências e pela declaração final do então relator do processo, ministro Hermann Benjamin, que se recusou a desempenhar na sessão de julgamento o papel de "coveiro de provas vivas".

Moro tampouco mencionaria no seu filme o fato de a Lava Jato ter convertido em piada a promessa de Temer de realizar "um governo de salvação nacional." Pilhado no grampo do Jaburu, o pseudosalvador comprou com cargos e verbas públicas o sepultamento de denúncias criminais num Congresso premido pelos constrangimentos e pelas culpas expostas na maior operação anticorrupção já realizada no país.

De resto, o ex-juiz deixaria de mencionar no seu documentário a mais eloquente de todas as evidências: numa conjuntura marcada pelo apodrecimento suprapartidário do sistema político, a condenação de Lula em segunda instância e a ordem de prisão do pajé do PT transformaram o antipetismo na maior força eleitoral da sucessão presidencial de 2018. Foi surfando nessa onda que Jair Bolsonaro, enrolado na bandeira da Lava Jato, saltou do baixo clero da Câmara para o Planalto.

Há na conversa de Moro com Eduardo Bolsonaro uma passagem que ajuda a explicar a cegueira historiográfica do "entrevistado". Nela, o Zero Três relembra que, quando seu pai convidou o então juiz da 13ª Vara de Curitiba para o posto de ministro da Justiça do novo governo, surgiu um "enredo" segundo o qual a migração de Moro para Brasília era parte de um complô.

"Para deixar claro, ministro, existia alguma conversação entre o Jair Bolsonaro e o senhor nos tempos de Lava Jato, antes de 2018?", perguntou o "entrevistador". E Moro: "Já falei publicamente diversas vezes: eu fui sondado pelo ministro Paulo Guedes uma semana antes do segundo turno, se aceitaria. E depois falei com o seu pai depois que ele foi eleito. Não tive uma relação próxima antes, e nem uma relação distante [...]."

Eduardo Bolsonaro simulou surpresa: "Bacana, nem eu sabia. Uma semana antes o Paulo Guedes chegou a sondar o senhor?" Moro reiterou: "Chegou, uma semana antes. Eu falei publicamente até, no ano passado. Ele foi até Curitiba e perguntou. Mas isso não foi levado a público. Nem seria apropriado. Poderia afetar... Poderia soar como um gesto para tentar afetar a eleição. Não havia necessidade. Seu pai estava na liderança." O Zero Três emendou: "E pra ganhar do PT não precisa nada, não. É só falar a verdade e não roubar, né?"

A conversa incluiu questões sobre o combate à corrupção e à criminalidade. A alturas tantas, Moro declarou ser natural que o movimento anticorrupção sofra "revezes e avanços". O importante, segundo ele, é perseverar. "Não pode desistir diante de eventuais problemas pontuais".

O ministro e o deputado se esqueceram de recordar —ou lembraram de esquecer— que Bolsonaro mantém em sua equipe ministros enrolados com a lei. Entre eles Marcelo Álvaro Antônio (Turismo), indiciado pela Polícia Federal de Moro e denunciado pelo Ministério Público no caso do laranjal do PSL de Minas Gerais. Moro e Eduardo celebraram durante a conversa a redução dos índices de mortes violentas no país.

Ironicamente, a "entrevista" foi divulgada nas redes sociais do filho Zero Três de Jair Bolsonaro neste sábado (15), o mesmo dia em que o pai e o irmão Flávio Bolsonaro esforçaram-se, numa entrevista no Rio de Janeiro, para se dissociar do miliciano Adriano da Nóbrega, morto há uma semana em ação conjunta das polícias do Rio de Janeiro e da Bahia, na cidade baiana de Esplanada.

A "entrevista" com Sergio Moro é a primeira de uma série que Eduardo Bolsonaro planeja realizar. O deputado criou nas redes sociais algo parecido com um programa. Chama-se "O Brasil Precisa Saber".

Na abertura, fazendo as vezes de "repórter", o filho do presidente anuncia: "Em uma era de fake News, onde a credibilidade da grande mídia se destrói a cada dia, o cidadão quer conhecer de perto a verdadeira revolução que vem ocorrendo em nosso país. Políticos, artistas, ativistas, personalidades de diversos setores que impactam a vida do povo brasileiro vão estar aqui. E você vai conhecer a verdade, descobrindo o que o Brasil precisa saber."

Josias de Souza