PUBLICIDADE
Topo

Caso da cocaína em voo da FAB desafia Heleno

Pedro Ladeira/Folhapress
Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

25/02/2020 01h40

O nariz é uma parte multiuso do corpo humano. Além de levar ar para os pulmões, serve para brilhar, espirrar, coçar e se meter onde não é chamado. O general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, já não precisa desperdiçar o tempo do seu nariz com problemas alheios.

A condenação de Manoel Silva Rodrigues, o sargento da Aeronáutica preso na Espanha com 39 quilos de cocaína ao descer de um avião da FAB, intima Heleno a se explicar. O sujeito era tripulante no avião de apoio da comitiva de Jair Bolsonaro, que rumava para a reunião do G-20, no Japão. Confessou o crime num tribunal de Sevilha. Pegou seis anos de cana, mais multa equivalente a R$ 9,5 milhões.

O sargento alegou que foi sua primeira carga de cocaína. Reconheceu, entretanto, que aproveitava as viagens internacionais no jato presidencial para se abastecer de mercadorias que comercializava no Brasil. Quer dizer: o sujeito começou como uma espécie de muambeiro de farda e terminou como traficante.

Há oito meses, quando a cocaína ganhou as manchetes, Heleno atribuiu o fato a um sortilégio do azar: "Podia não ter acontecido, né? Foi uma falta de sorte acontecer exatamente na hora de um evento mundial. Acaba tendo uma repercussão mundial que poderia não ter tido. Foi um fato muito desagradável..."

De fato, a coisa foi desagradável. Tão desagradável que o general deveria explicar como, afinal, a cocaína subiu a bordo. Mais: responsável pela segurança do presidente da República, precisa informar que providências adotou para evitar que muambas e drogas voltem a entrar no avião presidencial.

Nada do que Heleno disser eliminará o vexame internacional. Mas pode evitar a reincidência do descalabro. Com uma vantagem adicional: ocupado com os afazeres próprios de sua pasta, o general talvez desobrigue o seu nariz da tarefa de farejar chantagistas no Congresso e atiçar as ruas contra o Legislativo.

Josias de Souza