PUBLICIDADE
Topo

Chegou a hora da política do nós contra ele, o vírus

 Isac Nóbrega/PR
Imagem: Isac Nóbrega/PR
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

29/03/2020 06h33

Albert Eisntein soou premonitório quando disse, a propósito do poder de destruição das armas atômicas, o seguinte: "Não sei com que armas a 3ª Guerra Mundial será travada, mas a 4ª será travada com paus e pedras".

Chegou a terceira grande guerra. O inimigo é biológico, microscópico. Artefatos nucleares são inúteis contra ele. Indefeso, o mundo trancou-se em casa. Conta os cadáveres. E estima os prejuízos.

A improvisação é a marca do conflito. Por mal dos pecados, o coronavírus prospera no improviso. O estrago na economia mundial avança na proporção direta da demora em encontrar munição apropriada.

Pior do que duas crises, só três crises. No Brasil, Bolsonaro conseguiu adicionar às encrencas sanitária e econômica uma terceira confusão: a crise política. O capitão tornou-se um problema de saúde pública.

A pandemia potencializa as piores debilidades do inquilino do Planalto. À frente de um governo da guerra, pela guerra e para a guerra, Bolsonaro revela-se capaz de tudo, menos de confrontar o vírus.

Bolsonaro nunca aproveita as oportunidades que a conjuntura lhe oferece para melhorar. Dessa vez, o presidente é a oportunidade que o coronavírus aproveita. O brasileiro não merecia a reincidência da mediocridade no Planalto.

A pandemia entra em sua fase mais crítica no país. O Ministério da Saúde prevê que a curva do contágio subirá exponencialmente em abril. Para complicar, junto com o coronavírus virão outros dois surtos: o da influenza e o da dengue.

Seria um ótimo momento para Bolsonaro exercitar os dotes de um grande líder, se ele os tivesse. Como não possui esse tipo de talento, o capitão dedica-se a brigar com os governadores e os prefeitos que deveria liderar.

Bolsonaro complica-se em duas frentes. Numa, insinua que o crescimento econômico pode ser mais importante do que salvar vidas. Até porque o brasileiro já nasceu imunizado.

"Não pega nada... O cara sai pulando em esgoto, mergulha e não acontece nada", declarou Bolsonaro, convertendo-se no primeiro presidente da história a celebrar o fato de que, no Brasil, pobre não dispõe de saneamento básico.

Noutra frente, o presidente insulta a equipe da pasta da Saúde ao descrer das estatísticas sobre mortos e das previsões técnicas sobre o potencial de letalidade do coronavírus. Bolsonaro opera com teorias científicas próprias, alternativas.

Para o capitão, o coronavírus já está derrotado. Os pobres imunizam-se com esgoto. Os mais abastados serão curados da "gripezinha" com um remédio milagroso utilizado nos tratamentos contra a malária e o lúpus.

Isolamento social? Só para os idosos, declara, forçando o ministro Henrique Mandetta, da Saúde, a fazer malabarismo verbal para defender a permanência das pessoas em casa. Sob pena de levar o sistema de saúde ao colapso.

A falta de coordenação central submete a sociedade brasileira a duas anomalias. A primeira é a discrepância entre as providências adotadas por Estados e municípios. Alguns aderem ao confinamento e fechamento de parte do comércio. Outros, não.

Em Brasília, Bolsonaro fala em levantar o isolamento. O doutor Mandetta prega a manutenção das pessoas em casa, com liberação gradual, condicionada a pareceres científicos.

Mandetta busca diálogo com governadores. Bolsonaro acusa-os de exterminar empregos, politizando o vírus. Para o capitão, os inimigos do povo desejam paralisar a economia para impedir a reeleição de um presidente extraordinário.

Os paradoxos de Bolsonaro atrasam a implementação de medidas econômicas para socorrer pessoas e empresas vulneráveis. É como se o Brasil tivesse no momento não um presidente, mas um antipresidente.

O brasileiro merecia melhor sorte. Nos governos do PT, vigorou a estratégia do "nós contra eles". Bolsonaro aplica a tática do "eles contra nós". Desperdiça a oportunidade de tentar algo diferente: a política do nós contra ele, o vírus.

Ou a sociedade e as instituições funcionam à margem de Bolsonaro ou logo não restarão senão paus e pedras.

Josias de Souza