PUBLICIDADE
Topo

Bolsonaro busca vacina da sobrevivência política

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

09/04/2020 20h45

Desde o início da crise do coronavírus, Jair Bolsonaro levou o rosto à rede nacional de rádio e TV cinco vezes. Nesses pronunciamentos, ele oscilou do negacionismo da "gripezinha" ao realismo que o leva agora a se solidarizar com as famílias das vítimas do que passou a chamar de "guerra". Para entender o vaivém do presidente, é preciso relembrar uma declaração que ele fez no mês passado.

Ao expressar sua preocupação com as consequências da pandemia, Bolsonaro disse: "Se a economia afundar, afunda o Brasil. Se a economia afundar, acaba o meu governo." O pedaço dessa declaração que melhor simboliza o tormento de Bolsonaro é: "Acaba o meu governo."

Como não há dúvida de que a economia vai "afundar" numa grave depressão, Bolsonaro trava, segundo seus autocritérios, uma luta pela sobrevivência política.

Ao dizer que o isolamento social é de "responsabilidade exclusiva" de governadores e prefeitos, o presidente acha que está se imunizando contra o que está por vir. Ele sofisticou a estratégia ao realçar o provável efeito colateral do isolamento: "O desemprego também leva à pobreza, à fome, à miséria, enfim, à própria morte", disse Bolsonaro.

Ao mesmo tempo em que encosta a ideia da morte na imagem dos governadores, Bolsonaro vincula sua figura à ideia de que a cloroquina, que ele trata como se fosse uma vacina contra o coronavírus, pode "entrar para a história" salvando milhares de vidas no Brasil.

A certa altura, Bolsonaro diz no pronunciamento ter certeza de que "a grande maioria dos brasileiros quer voltar a trabalhar". Afirma que essa sempre foi a sua orientação. E acrescenta, como uma reticência: "Observadas as normas do Ministério da Saúde".

O ministro da Saúde, Henrique Mandetta, deu entrevista horas antes. Voltou a dizer que não é o momento de relaxar o isolamento social em cidades de alta incidência de contágio. Citou São Paulo, Rio, Fortaleza, Brasília e Manaus. Explicou novamente que o uso da cloroquina está, por ora, restrito aos casos graves e críticos.

Ou seja, o ministro de Bolsonaro continua avalizando o isolamento que o presidente julga desnecessário. E prescreve cuidado com um medicamento que o chefe trata como panaceia.

Mais tarde, quando a crise sanitária passar, o brasileiro vai se perguntar o que fizeram os governantes para defender as suas vidas. Vai-se descobrir, então, se a terceirização de responsabilidades será suficiente para imunizar Bolsonaro contra a patologia que provoca o derretimento político.

Josias de Souza