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Josias de Souza

Rachadinha é miniatura do velho patrimonialismo

Reuters
Imagem: Reuters
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

05/07/2020 06h24

Defensor ardoroso do patriotismo e da instituição familiar, Jair Bolsonaro uniu o útil ao agradável. Ensinou aos seus garotos, desde o berço, o valor do amor à pátria. Assim que cresceram, os rapazes seguiram o exemplo do pai. Casaram-se com a pátria e foram morar no déficit público. De rachadinha em rachadinha, os Bolsonaro fizeram do erário uma prótese de suas casas.

Em visita aos arquivos da Câmara, os repórteres Ranier Bragon e Camila Mattoso descobriram que a folha salarial do gabinete do então deputado federal Jair Bolsonaro tem uma aparência bem rachadona. Nos seus 28 anos de mandato parlamentar, o agora presidente praticou esquisitices insondáveis.

Por exemplo: assessores eram demitidos e recontratados no mesmo dia. Nas rescisões de fancaria, beliscavam 13º proporcional, indenização e férias. Da noite para o dia, remunerações dobravam, triplicavam e até quadruplicavam. Súbito, caíam a menos da metade.

Transferidos de pai para filho, pelo menos nove auxiliares de Bolsonaro viraram assessores do primogênito Flávio na época em que o hoje senador dava expediente como deputado estadual, na Assembleia Legislativa do Rio. Todos tiveram o sigilo bancário quebrado no caso da rachadinha, eufemismo para roubo de nacos de salários pagos pelo contribuinte.

No momento, além de Flávio, metido num escândalo multipartidário com outros 20 políticos do Rio, o vereador Carlos Bolsonaro encontra-se sob investigação por suspeita de empregar fantasmas em seu gabinete na Câmara Municipal do Rio. No ano passado, o Globo revelou: desde a década de 90, engancharam-se nos mandatos do patriarca Jair e dos filhos Flávio, Eduardo e Carlos 102 pessoas com algum parentesco entre si, em 32 núcleos familiares.

As perversões se interconectam. Carlos, o primeiro vereador federal da história, empregou parentes da ex-mulher de Jair. Operador da rachadinha de Flávio, o amigo Fabrício Queiroz repassou R$ 24 mil para a hoje primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Os bolsonaristas costumam menosprezar os detritos quando eles aparecem sob o tapete da primeira-família. Perguntam: E a corrupção bilionária do PT? Quando Queiroz virou um personagem de fama nacional, no final de 2018, o general Augusto Heleno disse numa entrevista a Pedro Bial:

"O presidente tá isento disso aí. O que apareceu dele é irrisório, uma quantia pequena, e ele mesmo já explicou." Referia-se à alegação inconvincente de Bolsonaro segundo a qual os R$ 24 mil gotejados na conta de sua mulher referiam-se a parte do pagamento de um hipotético empréstimo de R$ 40 mil que fizera a Queiroz.

Já se passou mais de um ano e meio. E Queiroz, agora preso em Bangu 8, ainda não explicou por que precisaria pedir dinheiro emprestado a Bolsonaro numa época em que ostentava em sua conta bancária movimentação de R$ 1,2 milhão.

Na prática, o que os bolsonaristas fazem ao tentar defender o mito e seus filhos é sobrepor a imagem do "troco" à dos "bilhões". O argumento ganha uma ossatura antropológica quando visto sob a ótica de um clássico: o "Sermão do Bom Ladrão", do padre Antônio Vieira.

Conta Vieira a certa altura que, navegando em poderosa armada, estava Alexandre Magno a conquistar a Índia quando trouxeram à sua presença um pirata dado a roubar os pescadores.

Alexandre repreendeu o pirata. E ele replicou: "Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?"

Citando Lucius Annaeus Seneca, um austero filósofo e dramaturgo de origem espanhola, que serviu em Roma como conselheiro de Nero, Vieira arrematou seu raciocínio: se o rei da Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata, todos —rei, ladrão e pirata— merecem o mesmo nome.

Quer dizer: morder nacos do salário de assessores e desviar bilhões das arcas da Petrobras são irrupções de um mesmo fenômeno. O tamanho do desvio importa pouco. De troco em troco também se chega ao bilhão. E quem se desonra no pouco mais facilmente o fará no muito.

Durante a campanha presidencial de 2018, Bolsonaro imaginou-se numa guerra do bem contra o mal. Cobrou dos adversários um comportamento de mulher de César. Acabou sendo abalroado pelo caso da rachadinha de Flávio pouco antes de sentar-se no trono.

Bolsonaro reagiu ao escândalo assim: "Se algo estiver errado —seja comigo, com meu filho ou com o Queiroz— que paguemos a conta deste erro. Não podemos comungar com erro de ninguém."

Quando a rachadinha veio à tona, em dezembro de 2018, Bolsonaro disse que pagaria se tivesse feito algo errado

UOL Notícias

Dias atrás, quando ainda encenava arroubos no cercadinho do Alvorada, Bolsonaro proclamou: "Eu sou a Constituição!" Versão tupiniquim do célebre "l'État c'est moi!", a declaração insinua que o presidente traz o patrimonialismo enterrado na alma. Os Bolsonaro não se sentem homens públicos. A pátria é que lhes atrapalha no gerenciamento do empreendimento familiar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL