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Derrotado pelo vírus, país liga botão de dane-se

Coronavírus capa - Pixabay
Coronavírus capa Imagem: Pixabay
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

06/07/2020 15h51

Com a curva de incidência da Covid-19 ainda em alta na maior parte do território nacional e às voltas com mais de 65 mil mortos, o Brasil claramente perdeu a guerra para o vírus. Mas há algo ainda pior do que a derrota: rendido a uma realidade que ainda vai piorar muito, o país decidiu apertar o botão de dane-se. No Brasil de hoje, qualquer pensamento otimista corre o risco de ficar velho em dois minutos. Ou em duas rodadas de cerveja nos bares reabertos das grandes capitais.

Além do vírus, só a irresponsabilidade avança no país. Operam no modo "dane-se" desde os gestores estaduais que roubam verbas dos respiradores que escasseiam nas UTIs até os brasileiros que, embriagados de insensatez, se acham no direito de esfregar títulos universitários na cara de fiscais sanitários para dizer eu "sou melhor do que você", como fez uma mulher, no último final de semana, no Rio de Janeiro.

Num ambiente assim, observar a Presidência da República tornou-se uma inutilidade. Quem insiste em desperdiçar tempo com Jair Bolsonaro descobre que o exercício serve apenas para descobrir qual foi a penúltima besteira pronunciada ou enviada pelo presidente para publicação no Diário Oficial. Tudo o que se relaciona a Bolsonaro e pandemia é inútil, inclusive dizer isso.

O Planalto publicou uma retificação na sanção da lei que obrigou o uso de máscaras em ambientes públicos. Com isso, revelou ao país que não há erro que não possa ser piorado. Bolsonaro vetou a obrigatoriedade do uso de máscaras em presídios. Estendeu para cadeias superlotadas o "liberou geral" que já havia instituído para o comércio, igrejas, salões de beleza, barbearias... O presidente reage às más notícias imitando o avestruz. Enfia a cabeça nas profundezas de suas ideias fixas. A novidade é que esse comportamento de Bolsonaro vai deixando de ser algo isolado. A insanidade virou um outro nome para normalidade. O Brasil entrou na fase do "dane-se".

Josias de Souza