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Punição de Deltan é fósforo em meio às labaredas

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

08/09/2020 19h55

No contexto das labaredas que consomem a Lava Jato, a punição imposta a Deltan Dallagnol pelo Conselho Nacional do Ministério Público corresponde à queima de um palito de fósforo. Aplicou-se contra Deltan a pena de censura por ter postado nas redes sociais mensagens contra a eleição de Renan Calheiros à Presidência do Senado. Certas punições, longe de desonrar, acabam dignificando o punido. Deltan agora recorrerá ao Supremo sob a alegação de que a Constituição lhe assegura o direito de expressar suas opiniões, como qualquer cidadão. Do outro lado da causa está Renan, acusado de corrupção em processos que o Supremo demora a julgar.

Deltan, agora ex-coordenador da Lava Jato, não está isento de críticas. Ao contrário, deu alguns tiros contra o próprio pé. Num deles, tentou criar, junto com os outros procuradores da força-tarefa de Curitiba, uma fundação privada anticorrupção com R$ 2,5 bilhões provenientes de verbas recuperadas do assalto à Petrobras. A coisa foi desfeita pelo Supremo, a pedido da então procuradora-geral Raquel Dodge. E o dinheiro foi devolvido à União. O que ocorre no momento com a Lava Jato extrapola o desejo de esfolar Deltan. Há um amplo movimento que empurra o esfoço anticorrupção para dentro do forno de assar pizzas.

Os pizzaiolos da Lava Jato seguem duas linhas de argumentação: a linha da "restauração do devido processo legal" e a linha da "revisão dos abusos da República de Curitiba." A estratégia do devido processo legal permite aos suspeitos, aos culpados e aos cúmplices chamar conivência de "garantismo". E a tese de que é preciso conter os arroubos de Curitiba é útil porque dispensa seus cultores de recordar que os condenados perambulam pela conjuntura acorrentados a confissões e provas que resultaram na recuperação de mais de R$ 4 bilhões em verbas surrupiadas de cofres públicos.

Os cavaleiros da velha ordem estão de volta. Movem-se com desenvoltura incomum. O movimento envolve um pedaço do Congresso e uma ala do Supremo. Há duas novidades: uma aliança com Jair Bolsonaro, agora integrado à pizzaria, e a simpatia abafadora do procurador-geral da República Augusto Aras. O problema da pizzaria é o excesso de massa. Será necessário definir o que fazer com a corrupção descoberta pela Lava Jato. Pode-se retardar julgamentos e anular sentenças. Mas roubalheira, de proporções amazônicas, não cabe no forno.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL