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Bolsonaro usa o arroz como estratagema eleitoral

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

10/09/2020 18h30

No episódio da alta dos preços dos alimentos da cesta básica, Jair Bolsonaro capricha na teatralidade. Normalmente, tudo o que o ser humano faz costuma ser motivado pelo cálculo do seu próprio interesse. Quando o ser humano é um político, aí mesmo é que o interesse coletivo se torna algo indistinguível sempre que confrontado com o desejo de privilegiar o interesse pessoal.

O presidente demonstrou sua capacidade de comunicação na construção de uma candidatura presidencial vitoriosa. Hoje, sabe-se que a campanha estava assentada em dois alicerces falsos: uma hipotética nova política e uma moralidade de vidro. No governo, Bolsonaro mantém o estilo teatral. Pouco importa ao presidente que algumas pessoas percebam seus truques. O que interessa é que a mágica mantenha viva a ilusão de pelo menos um terço do eleitorado.

Tomado pelas palavras, Bolsonaro parece ter compreensão sobre o que ocorre com os preços da cesta básica. Falando sobre a alta no preço do arroz para seus devotos no cercadinho do Alvorada, o presidente disse: "Não vamos interferir no mercado de jeito nenhum". Fez as pazes com o óbvio: "Não existe canetaço para resolver o problema da economia."

Simultaneamente, o presidente apela ao patriotismo dos empresários e manda o Ministério da Justiça intimar cooperativas e supermercados para prestar esclarecimentos. Numa ponta, o governo faz o que deve ser feito, zerando o imposto de importação do arroz, para estimular a concorrência. Noutra ponta, o ministro André Mendonça, soldado de Bolsonaro na pasta da Justiça, pendura no suposto liberalismo do governo a incoerência de uma ameaça de revogação da lei da oferta e da procura.

No meio da balbúrdia, há um presidente fazendo pose de candidato. Todo político precisa ter um estilo. O problema é que, na vida real, campanha é uma coisa e governo é outra. Como Bolsonaro não desceu do palanque, o país é submetido a um presidente que utiliza diuturnamente todos os estratagemas, inclusive o arroz, para atingir seus subterfúgios eleitorais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL