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Josias de Souza

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Fritura de Paulo Guedes evolui para humilhação

Mateus Bonomi/AGIF - Agência de Fotografia/Estadão Conteúdo
Imagem: Mateus Bonomi/AGIF - Agência de Fotografia/Estadão Conteúdo
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

22/02/2021 05h41

Jair Bolsonaro faz com Paulo Guedes o que fez com Sergio Moro. Depois de engordá-lo com a superstição de que seria superministro, frita-o em sua própria gordura. A exemplo de Moro, Guedes contribui para sua fritura.

Ambos esqueceram de traçar uma fronteira a partir da qual não aceitariam interferências de Bolsonaro. Moro deixou o Ministério da Justiça já bem passado. Guedes foi ficando. E sua fritura passou do ponto. Virou humilhação.

Há duas semanas, ao ser presenteado pelo centrão com a aprovação da autonomia do Banco Central na Câmara, Guedes referiu-se ao projeto como "um sonho", um "avanço institucional extraordinário".

A blindagem do BC contra interferências políticas ainda nem foi sancionada pelo presidente da República e o sonho do ministro da Economia já virou pesadelo. Jair Bolsonaro interveio na Petrobras. E se equipa para "meter o dedo" no setor elétrico.

Obcecado pela reeleição, Bolsonaro já não se preocupa em maneirar. Na equipe econômica, chamam-no de "Dilmo". Com a pandemia a pino e sem vacinas, retirou o populismo do armário.

O presidente move-se como se desejasse colocar uma coleira nos preços dos combustíveis e da conta de luz. O país já viu essa novela. O Tesouro Nacional e o consumidor morrem no final.

Imaginou-se que a ficha de Guedes cairia em meados do ano passado, quando fortaleceu-se no Planalto uma ala dita desenvolvimentista. Em agosto, Guedes disse coisas esquisitas. Por exemplo:

"Os conselheiros do presidente que estão aconselhando a pular a cerca e furar teto vão levá-lo para uma zona sombria, uma zona de impeachment, de irresponsabilidade fiscal. O presidente sabe disso. E tem nos apoiado".

O apoio que Guedes imaginava ter desapareceu quando a equipe econômica sugeriu cortar um abono que beneficiava 23 milhões de pessoas para financiar o Renda Brasil.

"Não posso tirar dos pobres para dar para paupérrimos", ralhou Bolsonaro. Agora, o Congresso discute a volta do socorro emergencial da pandemia. Guedes era contra. Foi ignorado pelo presidente. E rala para obter compensações fiscais.

Normalmente, os governantes costumam oscilar entre dois papéis. Nos dois primeiros anos, são maestros de orquestra. De costas para o público, ajustam as contas nacionais.

Nos dois últimos anos, os presidentes viram mestres de bateria, desfilando realizações pela avenida. Sob Bolsonaro, o bumbo soou sem que a sinfonia das reformas tenha sido executada.

O mercado já não enxerga em Guedes potencial para advertir o presidente. Ao contrário. Empresários e operadores financeiros se espantam com a bolsonarização do Posto Ipiranga.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL