PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Pose ambiental de Bolsonaro para Biden é desmentida pela PF no Supremo

Lalo de Almeida/ Folhapress
Imagem: Lalo de Almeida/ Folhapress
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

15/04/2021 04h00

O governo produziu dois documentos paradoxais. Num, Bolsonaro fez pose de ambientalista de mostruário, inimigo do desmatamento ilegal. Noutro, Ricardo Salles, ministro de Bolsonaro para o Meio Ambiente, foi apresentado como protetor de madeireiros criminosos.

A uma semana da Cúpula de Líderes sobre o Clima, capitaneada pelos Estados Unidos, Bolsonaro endereçou a Joe Biden carta de sete páginas. Fez afagos e promessas: "Queremos reafirmar nesse ato, em inequívoco apoio aos esforços empreendidos por V. Excelência, o nosso compromisso em eliminar o desmatamento ilegal no Brasil até 2030."

Simultaneamente, o superintendente da Polícia Federal no Amazonas, Alexandre Saraiva, protocolou no Supremo uma notícia-crime em que acusa o ministro antiambiental do governo Bolsonaro de aliar-se a desmatadores pilhados na maior extração de madeira de todos os tempos. Coisa de 200 mil metros cúbicos de toras. A mercadoria foi estimada em R$ 129 milhões.

Na correspondência enviada a Biden, Bolsonaro anotou que o combate ao desmatamento exigirá "recursos vultosos". A certa altura, deu a impressão de passar o pires: o Brasil espera contar com "todo apoio possível, tanto da comunidade internacional, quanto de governos, do setor privado, da sociedade civil e de todos os que comungam desse nobre objetivo."

Na notícia-crime ajuizada na Suprema Corte, o delegado federal Saraiva, chefe da PF no Amazonas desde 2017, solicita a abertura de investigação para apurar a suspeita de envolvimento de Salles em três crimes: dificultar a ação fiscalizadora do Poder público no meio ambiente, exercer advocacia administrativa e integrar organização criminosa.

Bolsonaro não gosta de ler jornais. Mas o pessoal da embaixada americana gosta. Joe Biden logo receberá informes sobre o noticiário em que o ministro brasileiro do Meio Ambiente é retratado pela Polícia Federal como benfeitor de criminosos. Um personagem que, em vez de apoiar a investigação, "sinalizou sua preferência ao lado de empresários responsáveis por grave degradação ambiental."

Num ambiente assim, em que o presidente brasileiro diz uma coisa e seu ministro é acusado de praticar o contrário, é improvável que Joe Biden se anime a aplicar recursos do contribuinte americano no programa de desmatamento de Bolsonaro.

O cotidiano de um político é uma sucessão de poses. Todo político é meio viciado em pose. Cada gesto, cada palavra do político é uma pose. Mas o que Bolsonaro não consegue compreender é que um político não pode ser feito apenas de pose. É preciso que por trás da pose exista uma noção qualquer de honradez.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL