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Josias de Souza

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Com atraso, Itamaraty procura OMS por vacinas

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

21/04/2021 20h03

O novo chanceler brasileiro Carlos França reuniu-se com o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom. Ele foi pedir vacinas contra a Covid. Desde o início da pandemia, há mais de um ano, foi a primeira vez que um chefe do Itamaraty esteve com a direção da OMS. Ernesto Araújo, o ex-chanceler que se orgulhava da condição de "pária", enxergava a entidade como uma espécie de trincheira do comunismo.

A boa notícia é que voltou ao comando do Itamaraty uma variante antiga da cepa dos diplomatas. Uma variante do tipo pragmática, capaz de reconhecer que a ideologia é o caminho mais longo entre as vacinas e o braço dos brasileiros. A má notícia é que esse reconhecimento chega com quase 400 mil cadáveres de atraso. Há um ano, em abril de 2020, o ex-chanceler Araújo divulgou um texto intitulado "Chegou o comunavírus". Denunciava que a coordenação global da pandemia pela OMS era "o primeiro passo em direção ao comunismo". Para ele, o "comunavírus" era mais perigoso do que o coronavirus.

A mania de criar fantasmas para depois se assustar com eles levou Ernesto Araújo a convencer Bolsonaro a ignorar o Covax Facility, um consórcio coordenado pela OMS para a aquisição de vacinas para países pobres e em desenvolvimento. O Brasil deu de ombros para a iniciativa quando ela foi lançada, em abril do ano passado. Semanas depois, sob pressão, o Ministério da Saúde contratou a cota mínima de vacinas, suficientes para aplicar duas doses em 10% da população: 42,5 milhões, para entrega até o final de 2021. Tenta-se agora adiantar o relógio.

No texto que divulgou um ano atrás, Ernesto Araújo insinuou que a Covid não era grave como os agentes do comunismo tentavam fazer crer. Nos seus delírios, o ex-chanceler disse que o medo deveria levar o brasileiro a "despertar novamente para o pesadelo comunista". Um projeto que, antes do "covidismo", já vinha sendo executado por meio do "climatismo ou alarmismo climático."

Por mal dos pecados, a ideologização do clima é outra infecção contra a qual o governo não se imunizou adequadamente. Bolsonaro participa nesta quinta-feira da abertura da Cúpula do Clima, organizada pelo presidente americano Joe Biden. O Brasil chega a esse encontro ostentando a imagem de pária ambiental.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL