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Josias de Souza

Capitão derrete Queiroga em semana radioativa

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

12/06/2021 00h41

O cardiologista Marcelo Queiroga tomou posse como ministro da Saúde em 23 de março. Numa de suas primeiras manifestações, o substituto do general Eduardo Pazuello soou alvissareiro. "Vamos deixar de gerar calor, vamos gerar luz", ele disse.

Ainda estalando de novo, com menos de três meses no posto, o ministro já está submetido a um aquecimento equiparável às ondas de calor que fizeram ferver Henrique Mandetta e Nelson Teich, seus dois antecessores médicos.

A semana começou com Bolsonaro cavalgando uma falsa auditoria do TCU para insinuar que o número de mortos da pandemia, avalizado pela pasta da Saúde, estaria inflado.

A semana termina com os preparativos para a participação do presidente numa nova aglomeração infecciosa movida a motocicletas, dessa vez em São Paulo. No intervalo entre a notícia falsa sobre os mortos e o passeio que favorece a elevação das estatísticas, Bolsonaro levou às manchetes pronunciamentos virais.

Neles, equiparou a cloroquina às vacinas, chamadas pelo presidente de "experimentais"; declarou que o que salva vidas é o "tratamento precoce" com remédios ineficazes; e reinaugurou um debate ruinoso que desestimula o uso de máscaras.

Avesso ao calor, Queiroga finge não notar, mas sua reputação de médico sofre um fenômeno chamado na língua inglesa de meltdown. É um termo usado para usinas nucleares cujos reatores explodem, fogem ao controle e derretem tudo ao redor.

Na década de 90, a expressão meltdown foi adotada pelos economistas para descrever a situação terminal de países cujas economias desandavam a ponto de que nada podia ser feito, exceto derreter junto.

A autoridade do ministro Queiroga está derretendo. Como costuma ocorrer num derretimento nuclear, também na crise sanitária do Brasil a pior sensação da combustão provocada por Bolsonaro, espécie de reator da pandemia local, é a de impotência.

Com apenas 11% de sua população vacinada com duas doses e quase meio milhão de mortos, o Brasil assiste ao derretimento do quarto ministro da Saúde da gestão Bolsonaro rezando para não derreter junto com Queiroga.