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Josias de Souza

Guedes vira primeira piada a chefiar a Economia

Jair Bolsonaro e Paulo Guedes em entrevista em Brasília - Ueslei Marcelino/Reuters
Jair Bolsonaro e Paulo Guedes em entrevista em Brasília Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

22/10/2021 20h12

Bolsonaro submete Paulo Guedes a uma inédita metamorfose. Virou uma versão financeira de Joseph Climber, o personagem que não desiste nunca. A exemplo de Climber, personificado pelo ator Welder Rodrigues, da companhia de teatro Os Melhores do Mundo, Guedes sofre uma devastadora sequência de reveses. Mas exibe invejável capacidade de readaptação. Climber começou sua trajetória como campeão mundial de luta livre. E terminou como um feliz e bem-sucedido peso para papel. Guedes entrou no governo como superministro. E virou a primeira anedota da história a comandar a Economia do país.

Não foi um inimigo que contou. O próprio Paulo Guedes se incumbiu de relatar. Muita gente da área política do governo, disse ele, andou fazendo "pescaria" no mercado para encontrar um novo titular para a pasta da Economia. Mencionou consulta feita ao banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, sobre a possibilidade de liberar o economista-chefe do banco, Mansueto de Almeida, ex-secretário do Tesouro Nacional.

No comando da ala política está Ciro Nogueira, líder do centrão e chefe da Casa Civil. Mansueto não foi o único a fugir do anzol. Guedes diz acreditar que Bolsonaro não encomendou a "pescaria". Todo mundo pode ter as suas crenças. Mas elas não alteram os fatos. E o fato mais relevante do momento é a derrota de Guedes para o centrão na guerra pelo controle do cofre.

Até outro dia, Guedes dizia que o teto de gastos era inegociável. Acusava de traidores os "ministros fura-teto". Agora, acha justificável a manobra legislativa que acomodou R$ 80 bilhões em despesas extraordinárias e eleitoreiras numa laje acima do teto.

Guedes alega que não se pode tirar nota dez em responsabilidade fiscal e deixar ao relento os brasileiros mais frágeis. Agarra-se aos R$ 400 do novo Bolsa Família como um álibi para a irresponsabilidade fiscal. Ninguém é contra o socorro. O que se questiona é por que o governo não financiou a política social cortando as emendas secretas do centrão. Ou podando incentivos fiscais bilionários.

Assustado com o curto-circuito do mercado, Bolsonaro fez uma visita cenográfica a Guedes. Só para dizer aos repórteres que ele tem a sua "confiança absoluta." O ministro declarou à imprensa que não pediu demissão.

Quando o presidente precisa dizer que um ministro está forte e o fortão tem de informar que não está demissionário, o presidente mente e o ministro finge que acredita.

Em governos convencionais, o presidente preside e o ministro segue suas determinações. Se os planos do ministro não coincidem com os desejos do presidente, ele é mandado embora. Se mandam o ministro fazer o contrário do que foi combinado, é ele quem pede para sair.

Fritado pelo centrão com o aval de Bolsonaro, Guedes virou piada no momento em que optou por permanecer na gordura quente. Um ministro da Economia que trabalha com um olho nas contas públicas e outro no coronel do centrão que comanda a Casa Civil é receita certa para o desastre.

A diferença entre Paulo Guedes e Joseph Climber é que a piada ministerial só tem graça para Bolsonaro e para a turma do centrão.