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Josias de Souza

Tática de Moro antecipa a reação de Bolsonaro

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

24/11/2021 09h43

O apetite político de Sergio Moro deve provocar um ajuste na estratégia eleitoral de Bolsonaro. O presidente e seus operadores se equipavam para deflagrar uma operação de "desconstrução" da imagem do novo candidato ao Planalto. Cogitam antecipar a execução do plano. Impressionaram-se com o ritmo acelerado e com o discurso de Moro, que passou a dar maior ênfase à crise econômica do que à agenda anticorrupção.

Prevalece entre auxiliares e aliados de Bolsonaro no Congresso a avaliação de que a prioridade de Moro é roubar votos do ex-chefe. Daí intenção de apressar a reação. Causou surpresa no Planalto a aparição de Moro no Senado nesta terça-feira. Uma semana depois de anunciar que incluiu o ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore no seu rol de conselheiros de campanha, Moro despejou sobre os microfones um ataque bem ensaiado à política econômica de Paulo Guedes, que classificou de "equivocada".

Moro criticou a "irresponsabilidade fiscal" da PEC dos precatórios, em tramitação no Senado. Ecoou as previsões de crescimento miúdo ou recessão para 2022. Declarou que é possível se compadecer de quem passa fome, elevando o valor do novo Bolsa Família, sem mexer no teto de gastos.

Um repórter iluminou os pés de barro do candidato, recordando que ele integrava o governo até outro dia. Moro desconversou: "Enquanto eu estava no governo, eu era responsável pelo Ministério da Justiça, nunca fui responsável pela política econômica", ele disse, antes de retomar as críticas: "O fato é que as promessas da política econômica, de respeito ao teto de gastos, responsabilidade fiscal e crescimento econômico, não foram realizadas."

Moro vai à vitrine com pressa. Parece decidido a aproveitar um instante em que Bolsonaro se casa com o centrão e o PSDB transforma suas prévias num processo de autocombustão. Logo terá de responder às insinuações bolsonaristas de que seu desempenho não foi adequado na pasta da Justiça.

De resto, adversários como Ciro Gomes, com quem Moro roça cotovelos nas pesquisas, logo recordarão que o ex-leão da Lava Jato miou para a família da rachadinha pelo tempo que permaneceu na Esplanada dos Ministérios.