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Josias de Souza

Moro promete por pressão as explicações que deveria ter fornecido por opção

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

27/01/2022 10h32

Nos 22 anos em que atuou como juiz, Sergio Moro especializou-se em cobrar explicações. Ao se transferir para a política, passou a operar do outro lado do balcão. Descobre da pior maneira que, em política, tudo o que precisa ser explicado não é bom. Todo o mal começa com as explicações. Moro promete para esta sexta-feira a divulgação dos rendimentos que obteve na consultoria Alvarez & Marsal, nos Estados Unidos.

Moro faz por pressão o que já deveria ter feito por opção. Vinha sendo pressionado a esclarecer sua relação com a empresa para a qual trabalhou depois de deixar o cargo de ministro da Justiça por adversários e pelo Tribunal de Contas da União. Cedeu quando os correligionários do Podemos, seu partido, o aconselharam a expor os dados.

A consultoria americana prestou serviços a companhias fisgadas na Lava Jato, entre elas a Odebrecht e a OAS. Moro alega que não atuou na Alvarez & Marsal em nenhum caso que envolvesse as empresas que condenou como juiz. Diz que levará à vitrine seus rendimentos. Logo perceberá que é preciso algo mais: terá de demonstrar que não se beneficiou indiretamente dos lucros obtidos pela consultoria.

Orientado pelos companheiros de partido, Moro tenta virar o jogo. Ironiza o recuo do PT na ideia de criar uma CPI para investigá-lo na Câmara. Afirma que o PT percebeu que deu "um tiro no pé, pois a CPI seria uma oportunidade de relembrar aqueles que realmente receberam suborno das empresas investigadas na Lava Jato."

No mesmo dia em que Moro prometeu retirar seus ganhos das sombras, Lula declarou em entrevista que não vai "jogar o jogo rasteiro." Afirmou: "Não vou entrar no lamaçal que eles estão entrando na perspectiva de me atacar."

Essa briga interessa muito ao eleitor. Numa campanha eleitoral, é preciso levantar todos os tapetes.