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Josias de Souza

Genivaldo não teria sido assassinado se estivesse em motociata de Bolsonaro

Planalto/Divulgação
Imagem: Planalto/Divulgação
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

29/05/2022 04h21

Genivaldo de Jesus Santos, 38, foi abordado numa blitz porque pilotava uma moto sem capacete na cidade de Umbaúba, nos fundões de Sergipe. Embora seguisse as ordens dos agentes da Polícia Rodoviária Federal —"parado", "mãos na cabeça..."—, foi insultado, revistado, derrubado, amarrado, enfiado no porta-malas de uma viatura e asfixiado com gás lacrimogêneo até a morte.

O crime de Genivaldo foi não estar numa motociata de Bolsonaro. Nesse tipo de evento, o presidente da República e outros motociclistas sem capacete são escoltados pela polícia, e não torturados.

Noutros tempos, mortes como a de Genivaldo seriam classificadas como mais uma aberração. Num instante em que a cenografia da campanha presidencial inclui passeios de moto nos quais Bolsonaro aparece de capacete apenas de raro em raro, a estupidez assassina ganha contornos de uma execução implicitamente autorizada.

De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, trafegar de moto sem capacete rende multa e suspensão do direito de pilotar. O presidente e os devotos que o acompanham nas motociatas jamais foram molestados por policiais.

Dias antes do assassinato de Genivaldo, agentes da Polícia Rodoviária Federal haviam participado como coadjuvantes da chacina em que a PM do Rio de Janeiro passou nas armas mais de duas dezenas de pessoas na favela da Vila Cruzeiro. Bolsonaro correu às redes sociais para parabenizar os policiais "guerreiros". Sobre a execução de Genivaldo, desconversou.

Policiais não exibiriam tamanho descaso pela vida e pelas consequências dos seus atos se não estivessem convencidos de que o desprezo é compartilhado. No fundo, eles se sentem implicitamente autorizados a barbarizar.

Um observador menos atento poderia concluir que o Estado brasileiro tabelou a morte de Genivaldo e a boa vida impune de Bolsonaro em R$ 293,47. É esse o valor da multa a que estão sujeitos os motociclistas sem capacete. Infelizmente, o buraco é mais profundo.

No Brasil paradoxal de Bolsonaro, dependendo do nível de renda e de poder do infrator, o desrespeito à legislação de trânsito pode resultar em impunidade ou na pena de morte.