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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Guedes e BC meteram-se num jogo de gato e rato

Em primeiro plano, Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central do Brasil; ao fundo, Paulo Guedes, ministro da Economia - Ueslei Marcelino/Reuters
Em primeiro plano, Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central do Brasil; ao fundo, Paulo Guedes, ministro da Economia Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

04/08/2022 09h32

Paulo Guedes e o Banco Central realizam uma inusitada façanha linguística: conseguem falar línguas diferentes expressando-se no mesmo idioma. No dia em que o ministro da Economia repetiu que "estamos em equilíbrio fiscal", a diretoria do BC sinalizou por meio da curva dos juros que enxerga uma farra fiscal onde Guedes vê estabilidade. Subiu os juros para 13,75%. E avisou que a taxa ainda pode ser elevada para 14% em reunião agendada para o final de setembro, a 11 dias da eleição presidencial.

"O pior já passou", disse Guedes. O Banco Central parece discordar. Operando em modo eleitoral, o governo produziu uma queda artificial nos chamados preços administrados -combustíveis e energia elétrica, por exemplo. O BC avalia que esses preços fecharão o ano em queda: deflação de 1,3%. Mas estima que, em 2023, explodirão: 8,3%.

"Sim, nós violamos o teto de gastos", admitiu o ministro da Economia, atribuindo o fenômeno à pandemia e à guerra na Ucrânia. Assegurou que o pagamento do Auxílio Brasil de R$ 600 até o final do ano não viola a responsabilidade fiscal. Bolsonaro já prometeu que, se reeleito, manterá o benefício reajustado. Não esclareceu de onde viria o dinheiro. Guedes condicionou a providência à aprovação de uma reforma tributária que não conseguiu entregar em quatro anos de governo.

Expressando-se num economês que se distancia da linguagem de animador de auditório adotada por Guedes, o BC sustenta que "a incerteza sobre o futuro do arcabouço fiscal do país e estímulos fiscais adicionais que impliquem sustentação da demanda agregada" envenenam as expectativas de inflação. Acrescenta que "a possibilidade de que medidas fiscais de estímulo à demanda se tornem permanentes acentua os riscos de alta para o cenário inflacionário".

É como se os dirigentes do Banco Central exclamassem para o ministro da Economia: "Fala sééééério!!!"

Paulo Guedes e o Banco Central meteram-se numa espécie de jogo de gato e rato. Brigam entre si enquanto Bolsonaro dá mão forte aos líderes do centrão, autorizando-os a anexar o Tesouro Nacional ao comitê da reeleição. Ciro Nogueira maneja a chave do cofre. Arthur Lira rege o orçamento secreto.