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Piloto que delatou esquema milionário do PCC tentou suicídio na prisão

O piloto de helicóptero Felipe Ramos Morais, que prestou serviços ao PCC - Reprodução
O piloto de helicóptero Felipe Ramos Morais, que prestou serviços ao PCC Imagem: Reprodução
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

colunista do UOL, e Luís Adorno, do UOL em São Paulo

30/09/2020 16h35

O piloto de helicóptero Felipe Ramos Morais, 33, responsável por entregar à PF (Polícia Federal) o maior esquema de lavagem de dinheiro do PCC (Primeiro Comando da Capital), tentou se matar na Penitenciária Federal de Campo Grande no último dia 18.

Ele tentou cometer suicídio porque o acordo firmado com ele em troca de delação premiada, que lhe daria o benefício de responder a um processo em liberdade, não foi cumprido por autoridades judiciárias.

Segundo Mariza Almeida Ramos Morais, defensora do piloto e mãe dele, "as autoridades se mostraram amadoras e extremamente despreparadas. Foi uma verdadeira cilada para o paciente. Depois de tudo assinado, gravado e filmado em vídeo sumiram com o acordo sem levar à homologação".

Graças ao depoimento de Morais, a PF desencadeou hoje a Operação Rei do Crime em São Paulo, Paraná e Santa Catarina e desarticulou o braço financeiro do PCC.

Os agentes federais prenderam 13 pessoas, interditaram mais de 70 empresas ligadas aos acusados e também pediram à Justiça o bloqueio de R$ 730 milhões.

O "voo da morte" de Gegê do Mangue

Morais prestava serviços aéreos para o PCC. Foi ele quem transportou para a morte Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca.

Os dois líderes da facção foram conduzidos em uma aeronave até a aldeia de Aquiraz, região metropolitana de Fortaleza, e assassinados a tiros por rivais em fevereiro de 2018. Morais afirma que um mês antes fora torturado por integrantes da facção criminosa.

Além do piloto outros nove réus respondem ao processo pelo duplo homicídio na Vara Criminal de Aquiraz. Segundo a Justiça cearense, as mortes foram comandadas pelo narcotraficante Gilberto Aparecido dos Santos, 49, o Fuminho, preso na Penitenciária Federal de Catanduvas (PR).

Piloto se coloca como vítima da Justiça, que não teria cumprido acordo

Após a tentativa de suicídio, médicos prestaram os primeiros socorros a Morais. Ele passou por avaliação e não foi preciso ser conduzido pela unidade de resgate para atendimento hospitalar externo.

Duas semanas antes, o piloto escreveu um requerimento para o juiz Dalton Igor Kita Conrado, da 5ª Vara Federal de Campo Grande, queixando-se da Justiça cearense.

No documento, o piloto chama juízes da Comarca de Aquiraz de "criminosos, verdadeira organização criminosa togada que tem de ser banida para o bem do serviço público".

Ele também pede ao juiz federal Dalton Conrado para que encaminhe as denúncias ao Conselho Nacional de Justiça e ao Conselho Nacional do Ministério Público e ameaça fazer greve de fome.

A diretoria do presídio informou que Morais já havia protagonizado outras greves de fome, mas nunca tinha tentado tirar a própria vida.

Morais recebe atendimento psicológico na prisão

O ex-piloto do PCC foi incluído no protocolo de atendimento e acompanhamento para casos de risco ou tentativa de suicídio e vem recebendo assistência psicológica.

A advogada dele mencionou no habeas corpus com pedido de liminar junto ao STJ (Superior Tribunal de Justiça), que o preso fez dois acordos de delação.

Segundo ela, o acordo com a Polícia Federal foi cumprido e a 3ª Vara Criminal Federal de Campo Grande expediu alvará de soltura em favor do piloto em 26 de abril de 2019.

Mariza Morais cita na petição que a delação premiada firmada por seu cliente com as autoridades estaduais cearenses foi uma "cilada" para o preso e, por isso, ele não foi solto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.