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Josmar Jozino

SP: 3 policiais civis condenados a 12 anos por extorsão mediante sequestro

Três policiais civis do 8º Distrito Policial de Belenzinho, na zona leste de São Paulo, foram condenados por extorsão mediante sequestro - Polícia Civil de São Paulo
Três policiais civis do 8º Distrito Policial de Belenzinho, na zona leste de São Paulo, foram condenados por extorsão mediante sequestro Imagem: Polícia Civil de São Paulo
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

11/12/2021 04h00

O juiz Davi de Castro Pereira Rio, da 2ª Vara Criminal de Mogi das Cruzes (SP), condenou na última terça-feira (7) três policiais civis do 8º DP (Belenzinho) pelo crime de extorsão mediante sequestro.

Marcelo Alegria Zecchinelli, 32, Marcos Antônio Ferreira, 54, e Adriano Gomes de Oliveira, 37, foram acusados de exigir R$ 300 mil do comerciante Thiago Maciel Neiva, 37, para não forjar um flagrante de tráfico de drogas contra a vítima.

Segundo investigações da Corregedoria da Polícia Civil, os três policiais civis e um quarto homem não identificado foram até Mogi das Cruzes em 24 de agosto de 2020 para cumprir mandado de busca e apreensão contra Alex dos Santos Traves, suspeito de integrar o bando do "golpe do motoboy".

O golpe tem como alvos principais os idosos e consiste em mandar um falso funcionário de banco para averiguar e buscar cartões de crédito e débito nas casas das vítimas. Os estelionatários, em poder de senhas bancárias, trocam os cartões e usam as contas correntes para fazer saques e compras.

Thiago estava em um prédio comercial em Mogi das Cruzes com dois amigos, negociando a venda de um veículo, quando os policiais civis chegaram e o confundiram com o estelionatário e o prenderam. Segundo o comerciante, o policial Marcelo ainda lhe disse: "A casa caiu, Alex".

O comerciante respondeu que seu nome não era Alex, mas Thiago. Os policiais o levaram até a casa dele, no bairro Cidade Jardim, também em Mogi das Cruzes.

Flagrante forjado

A Corregedoria apurou que no caminho os investigadores exigiram os R$ 300 mil, alegando que Thiago usava documento falso e tinha uma falsa central telefônica voltada à prática do estelionato.

Os policiais civis ficaram na casa de Thiago até às 17h28 exigindo o dinheiro e ameaçando prender o comerciante. De acordo com a Corregedoria, um dos policiais exibiu um pacote enrolado com fita crepe e afirmou que nele havia a droga que seria usada para forjar o flagrante.

Com medo de ser preso, o comerciante concordou em pagar os R$ 300 mil, sendo uma parcela de R$ 150 mil e o restante em parcelas semanais de R$ 15 mil. Os policiais, a princípio, disseram que o dinheiro deveria ser transferido para a conta de um doleiro.

Depois sugeriam a Thiago que ligasse para o banco e solicitasse à gerência para que elevasse o limite do cheque especial de R$ 20 mil para R$ 100 mil. Em seguida tentaram convencê-lo a vender dois de seus veículos para arrumar a quantia exigida.

Thiago ligou para um amigo de Uberlândia e ofereceu vender um veículo Volvo e um Jeep por R$ 90 mil, preço bem abaixo da tabela do mercado. As negociações não deram certo.

O comerciante, os dois amigos que estavam com ele e outros três homens que também acabaram rendidos no prédio comercial foram levados de Mogi das Cruzes para o 8º Distrito Policial do Belenzinho, na zona leste da capital.

No caminho, Thiago teve de pagar até pelo abastecimento de combustível da viatura policial. Na delegacia, os policiais civis apresentaram os amigos de Thiago e os outros três homens como averiguados. Um boletim de ocorrência foi registrado com a natureza de estelionato.

Ficou dez horas na viatura

O comerciante, porém, não foi levado para o interior do distrito. A Corregedoria descobriu que ele ficou dez horas dentro de uma viatura e depois em outro carro no estacionamento da delegacia. Nesse intervalo, o advogado dele foi contatado.

O defensor de Thiago foi ao DP e chegou a levar uma maquininha de cartão. Os policiais convenceram o comerciante a transferir R$ 60 mil para a conta do advogado e combinaram de pegar dias depois no escritório dele o restante da quantia exigida.

A mulher de Thiago estava grávida de sete meses e acompanhou o drama do marido. No dia seguinte, o advogado do comerciante o aconselhou a não dar mais dinheiro para os policiais civis. A vítima ficou com tanto medo que teve de se esconder no litoral paulista.

Um outro defensor de Thiago procurou a Corregedoria da Polícia Civil e denunciou o sequestro e a extorsão. Os policiais civis foram presos em 14 de outubro do ano passado.

Réus alegam inocência

Ouvidos em interrogatório, Marcos e Adriano negaram a prática delitiva. Segundo a Corregedoria da Polícia Civil, Marcelo optou em permanecer em silêncio.

Os defensores dos réus alegaram que os clientes são inocentes, que a denúncia oferecida contra eles é inepta e que houve insuficiência de provas no decorrer do processo.

Para o juiz Davi de Castro Pereira Rio, a materialidade delitiva foi devidamente comprovada com depoimentos de testemunhas, imagens de circuitos de segurança mostrando a abordagem da vítima, análise dos telefones celulares dos acusados, reconhecimentos fotográficos, documentos bancários e relatórios de investigações.

O magistrado negou aos três réus o direito de recorrer da sentença em liberdade. E também decretou a perda do cargo público de Marcelo, Marcos e Adriano.

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Três policiais do 8º Distrito Policial de Belenzinho confundiram um comerciante com um estelionatário e tentaram extorqui-lo
Imagem: Polícia Civil de São Paulo