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Josmar Jozino

REPORTAGEM

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Militares traficaram drogas em aviões da FAB 30 vezes, diz informante à PF

Os tabletes de cocaína encontrados com militar brasileiro na Espanha - Divulgação/Guarda Civil da Espanha
Os tabletes de cocaína encontrados com militar brasileiro na Espanha Imagem: Divulgação/Guarda Civil da Espanha

Colunista do UOL

08/01/2022 04h00

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Um colaborador anônimo disse à Polícia Federal que os militares que usaram a estrutura da FAB (Força Aérea Brasileira) para enviar cocaína à Europa fizeram 30 viagens e que os donos da droga trocaram os aviões oficiais por navios a partir de portos da região Sul do país por causa da prisão de um sargento da Aeronáutica.

Segundo o informante, os envolvidos no esquema mudaram de tática logo depois da detenção do sargento Manoel da Silva Rodrigues, flagrado em junho de 2019 com 39 kg de cocaína ao desembarcar no aeroporto internacional San Pablo, em Sevilha, na Espanha.

O autor das denúncias afirmou que mesmo com a prisão do sargento, o esquema cresceu tanto que os traficantes passaram a utilizar contêineres em grandes embarcações. Ele acrescentou que a cocaína vinha para o Brasil provavelmente do Peru ou Colômbia.

De acordo com o colaborador anônimo, o esquema de tráfico de drogas para a Europa que culminou com a detenção do sargento Rodrigues começou em 2013 e que foram feitas ao menos 30 viagens internacionais em aviões da FAB.

Ele contou que em cada viagem eram transportados no mínimo 10 kg de cocaína. A droga era comprada por US$ 6 mil o quilo e depois revendida na Europa por 20 mil euros o quilo.

10 mil euros por viagem

O denunciante disse que o militar recrutado para levar o entorpecente no avião da FAB recebia mil euros por quilo transportado, ou seja, ganhava dos traficantes internacionais pelo menos 10 mil euros em cada viagem.

O informante da PF acrescentou que tomou conhecimento do esquema em 2018 — durante o governo Michel Temer (2016-2019) —, quando um amigo muito próximo dele foi convidado por um corretor de imóveis, a "participar da empreitada delitiva".

À Polícia Federal o colaborador anônimo alegou que não queria que seu nome fosse revelado porque temia pela própria vida e também pela vida de seus familiares. Ele disse que soube também que desde a época do governo de Dilma Rousseff (2011-2016), o esquema de envio de drogas para a Europa em aviões da FAB já funcionava.

Mas foi no governo de Jair Bolsonaro, que Manoel da Silva Rodrigues foi preso em flagrante em Sevilha. O sargento estava em missão oficial do presidente da República e comitiva rumo ao Japão para reunião com a cúpula do G20.

Reportagem publicada pelo UOL em 31 de maio de 2021 mostrou que Rodrigues traficou cocaína em pelo menos sete viagens oficiais no Brasil e no Exterior antes de ser preso. Ele foi condenado a seis anos de prisão pela Justiça espanhola.

O segundo-sargento da Aeronáutica Manoel Silva Rodrigues, preso na Espanha - Reprodução Rede Social - Reprodução Rede Social
O segundo-sargento da Aeronáutica Manoel Silva Rodrigues, preso na Espanha
Imagem: Reprodução Rede Social

A Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal investigou as denúncias feitas pelo informante. As pessoas citadas pelo colaborador anônimo, todas civis, entre elas aquelas apontadas como donas da cocaína enviada à Europa, foram identificadas e localizadas pelos agentes.

Duas delas foram indiciadas por tráfico internacional de drogas em IPM (Inquérito Policial Militar) conduzido pelo Comando da Aeronáutica. A Justiça Federal também decretou a quebra de sigilo bancário e telefônico e o sequestro dos bens dos envolvidos.

Entre todos os acusados de envolvimento no esquema, apenas o sargento Rodrigues está preso. Os civis denunciados pelo colaborador anônimo da PF já responderam a processo por tráfico de drogas. Um deles foi preso em outubro de 2021, mas acabou solto por determinação da Justiça Federal.

Ele é investigado também por lavagem de dinheiro. A Receita Federal e a Polícia Federal apontam que o acusado é dono de academias de ginástica, imóveis de alto padrões e veículos importados em Brasília, mas que o patrimônio milionário adquirido é incompatível com os rendimentos dele.