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Josmar Jozino

Namorada ajuda "Escobar brasileiro" a montar empresa de fachada em Portugal

O ex-policial militar Sérgio Roberto de Carvalho, 62, conhecido como Major Carvalho - Reprodução/Ministério da Segurança Pública
O ex-policial militar Sérgio Roberto de Carvalho, 62, conhecido como Major Carvalho Imagem: Reprodução/Ministério da Segurança Pública
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

27/01/2022 09h29

Para viver em tranquilidade em terras lusitanas e obter o cartão Golden Visa Portugal, o ex-major da Polícia Militar do Mato Grosso do Sul, Sérgio Roberto de Carvalho, o Major Carvalho, tinha de se passar por um grande investidor e ser proprietário de uma empresa naquele país.

Em Portugal, o Programa Vistos Gold (Autorização de Residência para Atividades de Investimentos), está em vigor desde 2012 e já beneficiou ao menos 15 mil pessoas.

Na condição de empresário bem-sucedido, o Major Carvalho, com o Golden Visa, poderia ter residência fixa em território português e transitar livremente por vários países do continente europeu. E isso para continuar administrando seus negócios ilícitos: o tráfico internacional de cocaína.

Segundo investigações da Polícia Federal do Brasil, para colocar o plano em prática, Carvalho, um dos maiores narcotraficantes em atividade no mundo, contou com o apoio de uma mulher: Olívia Christina de Paula Traven, 45, uma brasileira naturalizada espanhola.

Com documentos e passaporte falsos em nome de Paul Wouter, o Major Carvalho, chamado na Europa de "Escobar brasileiro" em alusão ao traficante colombiano Pablo Escobar, comprou por 6 mil euros a Notávelabadia. A empresa, sediada em Lisboa, foi constituída em 29 de dezembro de 2017 e atuava no ramo imobiliário, comprando e vendendo prédios. Também cuidava da gestão de condomínios, de empreendimentos turísticos e de obras públicas. A PF diz que Olívia Traven intermediou as negociações.

A coluna entrou em contato com a ex-dona da Notávelabadia, Margarida Santos. Segundo ela, em 25 de junho de 2018, um homem que se apresentou como Paul Wouter, portando passaporte com esse nome, disse que gostaria de constituir uma empresa em Portugal ou adquirir uma já constituída.

málaga - Reprodução - Reprodução
Casa onde vivia o Major Carvalho em Málaga, na Espanha. Imóvel é avaliado em dois milhões de euros
Imagem: Reprodução

Lavagem de dinheiro

Já no dia seguinte - ainda de acordo com Margarida Santos -, Paul Wouter adquiriu 100% das participações da empresa e também realizou uma assembleia geral, sendo nomeado o único gerente.

Margarida Santos acrescentou que em 24 de agosto de 2018 foi registrada a alteração da sede da empresa e o capital social aumentou de 100 euros para 1.000.100,00 euros. Nesse dia, no entanto, Paul Wouter encontrava-se preso na Espanha pela acusação de tráfico internacional de drogas.

Pois também foi com o nome falso de Paul Wouter que o Major Carvalho acabou detido na Espanha, em 8 de agosto de 2018, depois que uma embarcação transportando 1,7 tonelada de cocaína foi apreendida na Galícia. A prisão aconteceu dois meses após a compra da Notávelabadia.

O "Escobar brasileiro" ficou preso quatro meses e foi solto após pagar fiança de 200 mil euros. A Justiça espanhola o condenou a 13 anos, mas desde então ele continua foragido.

Para tentar se livrar de vez dessa condenação na Espanha, o major, ainda usando a identidade falsa de Paul Wouter, forjou a própria morte. Um médico de Málaga assinou o atestado de óbito. A Polícia Federal do Brasil descobriu a farsa e comunicou as autoridades espanholas.

Para a PF, o capital utilizado na operação envolvendo a Notávelabadia foi obtido com o lucro do tráfico internacional de droga e a empresa de fachada foi comprada pelo Major Carvalho com uma finalidade: Lavar o dinheiro arrecadado com a exportação de toneladas de cocaína para a Europa.

Margarida Santos enviou à reportagem vários emails com documentos sobre a venda da Notávelabadia. Ela afirmou que não conhece a pessoa que se identificou como Paul Wouter e que todos os serviços jurídicos contratados foram realizados por outros colaboradores da empresa.

A empresária foi ouvida em Portugal pelo juiz Carlos Alexandre e contou a mesma versão. A reportagem apurou, no entanto, que apesar de ter vendido a Notávelabadia, Margarida Santos pagou, no ano passado, mês a mês, as contribuições sociais da empresa.

Mensagens de amor

As autoridades portuguesas investigam a participação de Olívia Traven no golpe aplicado pelo major. A reportagem também teve acesso a outros e-mails enviados por ela a empresários portugueses, intermediando a compra de dois apartamentos em Lisboa para Paul Wouter.

Em outro e-mail, ela escreve uma mensagem de amor a Paul Wouter. Olívia diz que gosta de andar de mãos dadas e também de fazer sexo com ele. Para a Polícia Federal, a brasileira naturalizada espanhola é amante do "Escobar brasileiro".

Já os advogados de Olívia afirmam que ela nunca teve relacionamento com o major, é casada com o espanhol Cristóbal Lopez, que os atos criminosos de Carvalho não dizem respeito a ela e que a cliente não tem conhecimento da área de atuação dele.

Os defensores dizem ainda que Olívia é inocente de todas as acusações e que a intermediação na compra de imóveis da qual é acusada pela Polícia Federal, não é ilegal, mas sim uma profissão regulamentada e que a cliente recebe por isso.