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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Em meio à delação, viúva de Adriano recebe falso contato sobre tornozeleira

Julia Lotufo e Adriano da Nóbrega, em fotografia registrada no litoral da Bahia - Reprodução
Julia Lotufo e Adriano da Nóbrega, em fotografia registrada no litoral da Bahia Imagem: Reprodução
Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

21/07/2021 04h00

Na semana passada, Júlia Lotufo, viúva do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, recebeu um contato de alguém que se identificou como servidor da Seap (Secretaria de Administração Penitenciária) e disse que ela precisava fazer uma manutenção do aparelho. No entanto, a ligação não era, realmente, de um servidor da instituição.

A coluna apurou que a pessoa que ligou disse que precisava ir pessoalmente na casa onde Júlia cumpre prisão domiciliar desde abril deste ano. Ela teve a prisão decretada na Operação Gárgula, em março. Júlia então teria dito que não iria receber ninguém e a pessoa insistiu para que ela se dirigisse à Seap.

Desconfiada, a viúva do ex-oficial do Bope desligou e fez contato com a secretaria para saber se realmente era necessário fazer alguma manutenção de sua tornozeleira. Ao fazer o contato, descobriu que a Seap não tinha feito contato algum.

Júlia comunicou o caso ao TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio). A coluna tentou contato com a defesa de Júlia Lotufo, mas não obteve retorno.

Questionada pela coluna, a Seap informou por nota que "tomou conhecimento da ligação citada após ser oficiada pelo Poder Judiciário perguntando o motivo da ligação". A Seap disse ainda que, conforme respondido à Justiça, "não houve qualquer ligação feita da Seap para a pessoa informada".

Júlia Lotufo foi companheira de Adriano da Nóbrega, ex-oficial do Bope e líder do Escritório do Crime, milícia de Rio das Pedras, na zona oeste do Rio de Janeiro. Nóbrega morreu em fevereiro do ano passado durante uma operação policial na Bahia. Ele passou mais de um ano foragido da Justiça.

Após ser acusada por crimes envolvendo o Escritório do Crime, Júlia decidiu tentar um acordo de colaboração premiada com o MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro). Parte do depoimento de Júlia tratava do caso do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista Anderson Gomes

Também na semana passada, as promotoras Simone Sibilio e Letícia Emile decidiram deixar a investigação sobre o mandante do homicídio. Elas cuidavam do caso há mais de dois anos e apontaram inconsistências nos relatos de Júlia. Segundo o jornal O Globo, as promotoras temiam interferência externa e, por isso, deixaram o caso. As promotoras também teriam entregado um dossiê ao procurador-geral de Justiça do Rio, Luciano Mattos.