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Juliana Dal Piva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Flávio com foro, mas relatório que tirou sono da família Bolsonaro segue

O senador Flávio Bolsonaro no Senado - MATEUS BONOMI/AGIF - AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA/ESTADÃO CONTEÚDO
O senador Flávio Bolsonaro no Senado Imagem: MATEUS BONOMI/AGIF - AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA/ESTADÃO CONTEÚDO
Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

01/12/2021 11h02

Há pouco mais de um ano, as provas colhidas para formalizar a denúncia contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio) precisavam ser transportadas em um carrinho dentro dos corredores do MP-RJ (Ministério Público do Rio). Uma pessoa sozinha não era capaz de carregar tamanho material arrecadado em dois anos e meio de investigação.

Foram reunidas mais de seis mil páginas de documentos além dos demais dados em formato digital. Só que as recentes decisões do STJ (Superior Tribunal de Justiça) e do STF (Supremo Tribunal Federal), anulando diversas provas, reduziram essas milhares de páginas a apenas alguns volumes do antigo carrinho. Mesmo assim, o sonho do senador de ver o caso arquivado não se completou porque a partir da decisão do STF ontem, de anular quatro relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), restou o relatório que deu origem à investigação e que iluminou o caminho para a coleta das demais provas.

Flávio e Jair Bolsonaro têm pesadelos com esse documento e essa história desde que o caso veio à tona por uma reportagem do jornalista Fabio Serapião no jornal O Estado de S. Paulo, pouco antes da posse. Sob anonimato, um aliado de Flávio contou à coluna que, dias depois da notícia, naquele dezembro de 2018, o senador telefonou uma noite para desabafar sobre a pressão que sofria e deu a entender que a grande preocupação era em com o caminho que iluminava a história até seu pai, o então presidente eleito: Jair Bolsonaro.

Por isso, desde dezembro de 2018, o advogado Frederick Wassef tenta encontrar maneiras de anular o relatório que mostrou uma movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta de Fabrício Queiroz, subtenente da reserva da PM-RJ e ex-assessor de Flávio no antigo gabinete na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio). Ali, no meio do documento sobre 75 assessores e ex-assessores de deputados fluminenses, estava registrado que Queiroz recebeu diversos repasses de outros oito assessores de Flávio, em sua maioria familiares do policial, e que fazia regularmente saques em espécie. Também ficou anotado o depósito de seis cheques de R$ 4 mil para Michelle Bolsonaro, primeira-dama.

Segundo o aliado de Flávio, ao tentar se explicar na ligação, o senador disse: "Queiroz, é amigo próximo de quem? E cheque para Michelle? É mulher de quem?"

Assim, anular esse relatório levaria o caso ao fim de vez. Por isso, Wassef fez pelo menos quatro tentativas de inutilizar esse relatório, e outros, desde janeiro de 2019. Só teve sucesso no dia 30 de novembro de 2021, quase três anos depois da primeira investida. Os diferentes pedidos feitos ao TJ-RJ e ao STJ foram negados. E, diferente do julgamento do foro especial que demorou um ano e meio para acontecer, o habeas corpus para anular os relatórios do Coaf tramitou e foi julgado no STF depois de apenas seis meses.

O relatório do Coaf que permaneceu válido após a decisão do STF ontem é o ponto de onde o MP-RJ precisará reiniciar a coleta de provas do caso. Depois disso, ainda restam outras provas não anuladas pelas decisões como o depoimento de Luiza Sousa Paes que admitiu, em colaboração espontânea com a Justiça, que era funcionária fantasma de Flávio e que entregou cerca de R$ 160 mil para Queiroz. No relatório do Coaf, como era relativo apenas ao ano de 2016, só existia a informação de repasses no total de R$ 3,5 mil. Chama atenção que ela admitiu entregas de valores mensalmente mesmo quando estava nomeada em outro setor da Alerj e não mais no gabinete de Flávio.

Além disso, restou aos investigadores as imagens obtidas de dentro da agência bancária da Alerj onde Queiroz pagou despesas pessoais de Flávio em dinheiro vivo, além das mensagens de Danielle Nóbrega, ex-mulher do miliciano Adriano Nóbrega, nas quais ela conversa com Queiroz sobre o esquema no gabinete. Danielle também foi apontada pelo MP como funcionária fantasma e, em certo momento das mensagens, admite que a origem daquele dinheiro a fazia ter "peso na consciência".

Apesar de ter assegurado a mudança de juiz do caso, a decisão do STF sobre o foro foi importante para o MP-RJ porque firma, enfim, a competência de julgamento e define onde deverá ser apresentado um eventual novo pedido de quebra de sigilo, essencial para uma nova coleta de provas dos depósitos recebidos por Queiroz (R$ 2 milhões) e da lavagem de dinheiro com imóveis e na antiga loja de chocolates.

Retomar as investigações do início pode ser frustrante para o MP-RJ depois de todo o trabalho nesses últimos anos. Mas é possível e o caminho a ser percorrido está demonstrado com mais dados até publicados pela própria imprensa.

No podcast "UOL Investiga: A vida secreta de Jair" foram revelados áudios de Andrea Valle, ex-cunhada de Bolsonaro e ex-assessora de Flávio, admitindo a entrega de R$ 7 mil todos os meses no período em que esteve nomeada. Andrea também revelou um outro operador, seu tio Guilherme Hudson, a quem entregava seu salário. A Procuradoria-Geral de Justiça do Rio, porém, não os chamou para explicar essas informações até o momento.

Os podcasts do UOL estão disponíveis em uol.com.br/podcasts e em todas as plataformas de distribuição de áudio. Você pode ouvir UOL Investiga, por exemplo, no Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts, Amazon Music e Youtube.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL