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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Demônio, bem contra o mal e militância paga: Bolsonaro está em campanha

Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

27/03/2022 13h25

Batalha espiritual, demônio, luta do bem contra o mal, oração e o direito a uma segunda chance. Esse é um pequeno resumo do tom dos discursos que os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro ouviram no "Movimento Filia Brasil", nome criado de última hora para o evento que pretendia ser o lançamento da pré-candidatura à reeleição de Bolsonaro. No entanto, com o risco de ferir a legislação eleitoral, o nome foi modificado.

Acostumado a conviver com multidões, é provável que Bolsonaro tenha visto do palco que seus apoiadores não lotaram o salão do Centro Internacional de Convenções do Brasil, local do evento.

A coluna também conversou com diversos militantes, sob anonimato, e ouviu deles que, para estar ali, os apoiadores tinham recebido dinheiro para pagar o combustível ou que tinham vindo em ônibus fretados. Uma grande parte deles estava com camisetas para divulgar o nome de Rafael Sampaio, pré-candidato a deputado federal e assessor da ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda.

Alguns deles também estavam com faixas com frases de apoio a Bolsonaro, Flávio e Sampaio e tinham a inscrição: "Cumprindo a missão". A mesma mensagem também estava nas camisetas dos militantes.

Apoiadores do assessor Rafael Sampaio em evento de Bolsonaro - Juliana Dal Piva - Juliana Dal Piva
Apoiadores do assessor Rafael Sampaio em evento de Bolsonaro
Imagem: Juliana Dal Piva

O PL (Partido Liberal), porém, estimou em três mil o público do evento que também contou com a presença de diversos ministros e políticos. Bolsonaro esteve acompanhado da primeira-dama Michelle e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu filho mais velho.

Batalha espiritual

Pouco antes de passar o microfone a Bolsonaro, o locutor do evento disse: "É uma batalha espiritual. Quero dizer que temos que orar e agradecer. O diabo e o demônio vem para roubar, mentir, confundir, para matar e destruir. Veio a esquerda e roubou o país, veio a esquerda e tentou matar e tirar a vida do Jair Messias". Os presentes ainda rezaram uma oração do pai-nosso antes de Bolsonaro iniciar seu discurso.

O presidente deu diversos recados durante seu discurso. Citou ações do governo, criticou governadores por medidas de isolamento social durante a pandemia e entrou no clima de "batalha espiritual" mencionado pelo locutor. "O nosso inimigo não é externo, é interno. Não é luta da esquerda contra a direita, é do bem contra o mal", afirmou Bolsonaro.

Novamente, o presidente ensaiou uma vacina para as críticas contra sua filiação ao PL de Valdemar Costa Neto, presidente da legenda do presidente e que foi condenado pelo STF no Mensalão do PT.

O Bolsonaro que tantas vezes criticou a corrupção e disse que "bandido bom é bandido morto" quis soar mais compreensivo. "Somos todos humanos e podemos errar", disse o presidente. Ainda completou: "Quem está aqui e não merece uma segunda chance?"

Flávio Bolsonaro seguiu na linha pai. Falou da família, mas já se antecipou às críticas pela denúncia do MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) que o acusou de liderar uma organização criminosa que desviou R$ 6 milhões da Alerj. "Quando ele vem defender o instituto família, não é defender um filho não. Não é defender um parente ou um amigo por algo que fez de errado que nós não fizemos nada de errado", discursou o senador. No entanto, como o STJ (Superior Tribunal de Justiça) anulou diversas provas, os procuradores fluminenses terão que refazer parte das investigações para poder oferecer nova denúncia sobre o caso.