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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Assim como Lula, Bolsonaro já admitiu que aborto é decisão da mulher

Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

07/04/2022 09h33

Ao longo da quarta-feira (6), bolsonaristas criticaram um discurso de Lula no qual ele defendeu que o aborto precisa ser discutido como uma questão de saúde pública, debatida entre o casal e, ainda, uma decisão da mulher. O que os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ) talvez não saibam é que, mesmo conservador, Bolsonaro já teve opinião semelhante.

Antes de imaginar que um dia seria presidente e iria usar a proibição ao aborto como plataforma política, ele também expôs o que pensava sobre o tema e admitiu que já tinha vivido uma situação na qual discutiu a possibilidade do aborto. Essa entrevista é tão relevante para a família que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chegou a citá-la no livro "Mito ou verdade", uma biografia que ele escreveu de Jair Bolsonaro. Em entrevista à revista Istoé Gente, em 2000, Bolsonaro foi perguntado se era favorável ao aborto e o então deputado federal sequer mencionou que deveria ser proibido.

- E sobre a legalização do aborto?

- Tem que ser uma decisão do casal.

- O senhor já viveu tal situação?

- Já. Passei para a companheira. E a decisão dela foi manter. Está ali, ó - disse, apontando para um retrato de Jair Renan, que à época tinha cerca de 1 ano e meio.

Questionado pela Folha sobre o aborto, em 2018, Bolsonaro manteve a resposta que deu à Istoé Gente, em 2000. "Não compete ao outro lado", o do homem, dizer se a mulher deve ou não interromper uma gravidez. "Vamos supor que eu tenho um relacionamento contigo. Você quer o aborto." Bolsonaro afirmou, então, que caberia à repórter definir o que fazer nesse caso.

Jair Renan é o quarto filho de Bolsonaro. Ele nasceu em 10 de abril de 1998, no Rio de Janeiro, durante o relacionamento do agora presidente com a advogada Ana Cristina Siqueira Valle.

No entanto, quando ela engravidou os dois ainda eram casados com outras pessoas e a gravidez chegou a motivar a separação de Bolsonaro e Rogéria, mãe de Flávio, Carlos e Eduardo, os três filhos mais velhos de Bolsonaro.

Quando Jair Renan nasceu, foi Ana Cristina quem registrou o filho no cartório. No primeiro documento, o bebê foi registrado como "Renan Valle" e o documento não tinha a identificação do nome do pai. Interlocutores de Bolsonaro relataram ao UOL que ele exigiu um exame de DNA. O reconhecimento da paternidade só ocorreu depois do teste, e uma nova certidão foi expedida pela 5ª Circunscrição do Registro Civil das Pessoas Naturais (Freguesias Lagoa e Gávea), no Rio de Janeiro, em 1º de fevereiro de 2001.

Nesse novo documento, a identidade do "filho 04" foi alterada para Jair Renan Valle Bolsonaro. Em 2018, Ana Cristina deu sua versão à revista Época sobre a mudança do nome. "Eu queria só Renan", contou. "Ele disse: 'Não, não vai ser Renan, vai ser Jair Renan. Não consegui botar nem um nome de filho meu de Jair, esse vai ter'."

Discurso de Lula

Essa semana, o pré-candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), afirmou que : "Aqui no Brasil, as mulheres pobres morrem tentando fazer aborto, porque é proibido, o aborto é ilegal". Ainda defendeu que o assunto seja discutido entre o casal. "Aqui no Brasil não faz (aborto) porque é proibido, quando na verdade deveria ser transformado numa questão de saúde pública, e todo mundo ter direito e não ter vergonha. Eu não quero ter um filho, eu vou cuidar de não ter meu filho, vou discutir com meu parceiro. O que não dá é a lei exigir que ela precisa cuidar", declarou.

As declarações motivaram críticas do bolsonarismo e dos filhos de Bolsonaro. No Twitter, Flávio escreveu: "Lula defende abertamente o aborto e ainda diz que a pauta da família e dos valores é uma pauta atrasada. Para os cristãos, que cogitam votar no bandido, deixo aqui a reflexão: Ou você é cristão ou defende quem é a favor do aborto. Os dois não dá!"