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Trump constrói bomba-relógio de coronavírus bem no meio da eleição

O presidente dos EUA, Donald Trump, ouvindo perguntas de jornalistas sobre o coronavírus - TOM BRENNER/REUTERS
O presidente dos EUA, Donald Trump, ouvindo perguntas de jornalistas sobre o coronavírus Imagem: TOM BRENNER/REUTERS
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

06/07/2020 13h13

Para negar o agravamento da pandemia de coronavírus nos EUA, a última do presidente Donald Trump é dizer que a taxa de mortalidade de covid-19 está "baixa e estável".

Na média nacional, o número de mortes permanece na casa de 550 óbitos diários, apesar de 32 dos 50 estados apresentarem aumento significativo de novos casos. Logo, faria sentido o argumento usado insistentemente por Trump de que o maior número de casos descobertos se deve ao maior número de testes realizados.

Mas é mentira.

Autoridades sanitárias do próprio governo afirmaram que a taxa de infecção cresceu proporcionalmente ao longo de junho. Relativamente, mais gente está ficando doente. Fosse verdade o que Trump alardeia, o percentual de pessoas com covid-19 teria caído ou ficado estável, mas está em elevação.

Confrontados com a realidade, o presidente e aliados se apegam a outro argumento de sua teoria negacionista, o de que a grande maioria dos novos casos de covid-19 reside na faixa de 20 a 35 anos de idade. O presidente e o vice Mike Pence dizem que a juventude é mais resistente à doença. Portanto, a imprensa e os especialistas agiriam com alarmismo.

Jovens sofrem menos, mas são potenciais transmissores para segmentos mais vulneráveis da população. Detalhe: uma parcela da juventude também adoece. Há estudos que apontam risco de sequelas aparentemente inofensivas hoje, mas lesivas no longo prazo.

A covid-19 pode comprometer a capacidade respiratória. Exemplo: jovens fumantes que terão doenças decorrentes desse hábito só na vida adulta. Não dá para comemorar que o maior número de infecções esteja atingindo prioritariamente essa faixa etária.

Para agravar a situação, cresce no país o número de internações. Estados como Texas, Arizona e Califórnia se preocupam com o estrangulamento do sistema hospitalar. Na Flórida, o ritmo meteórico de crescimento de casos assusta especialistas.

O crescimento da pandemia no país expõe mais uma falha americana na comparação com outros países desenvolvidos: a maioria dos estados não têm estrutura suficiente para fazer contato e monitorar doentes, o que é fundamental para controlar a pandemia.

Trump perguntou no Twitter se havia notícia de falta de aparelhos de respiração assistida (ventiladores). Não há. Mas já foi dado o sinal amarelo para o nível de ocupação de leitos de UTIs em diversos estados.

Apesar dos apelos de especialistas, cenas de bares, piscinas e praias lotadas foram comuns no fim de semana de 4 de Julho, o Dia da Independência. Com um presidente que dinamita cotidianamente medidas de prevenção, parte da população não leva a sério o risco de ficar doente. A juventude parece curtir a vida como se este fosse um verão como outro qualquer. Tem até festa com competição para ver quem contrai antes o coronavírus.

Trump fez um ato na sexta na Dakota do Sul e uma festa na Casa Branca no sábado nos quais não havia a menor preocupação com uso de máscara e distanciamento social. É a tal liderança pelo mau exemplo, o que desinforma e desorienta a população.

Na sexta, ele simplesmente se comparou a George Washington, Abraham Lincoln, Theodore Roosevelt e Thomas Jefferson, presidentes que têm seus rostos esculpidos no Monte Rushmore, na Dakota do Sul. De acordo com Trump, o risco para os EUA seria um "fascismo de extrema-esquerda", expressão que utilizou para se referir aos protestos contra o racismo estrutural, a violência policial e estátuas de personagens históricos ligados à escravidão.

No sábado, a celebração na Casa Branca foi marcada por ataques à imprensa, aos manifestantes e ao Partido Democrata, todos unidos, no entender de Trump, para destruir os valores americanos.

O tom para dividir a população repete a estratégia vitoriosa de 2016, mas parece não estar funcionando na campanha de 2020. A popularidade presidencial caiu e o democrata Joe Biden tem liderança folgada nas pesquisas, inclusive em Estados decisivos para a vitória no Colégio Eleitoral.

A retórica de guerra cultural busca dividir para conquistar eleitores e tirar a pandemia dos holofotes sugerindo ameaças mais graves ao destino da nação. É neofascismo na veia.

Os fatos tendem a derrubar os argumentos de Trump. Em duas ou três semanas, será possível ver o reflexo do descontrole pandêmico na estatística de número de mortes. Especialistas dizem que isso é uma questão de tempo, pois estaria se formando uma nova onda que poderá elevar as mortes aos patamares de abril (até 3 mil por dia).

Ora, não precisa ser nenhum Sherlock Holmes para concluir que Trump está construindo uma perigosa bomba-relógio nos Estados Unidos bem no meio de sua campanha à reeleição.