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Trump atira em Fauci e dobra aposta na normalização da pandemia

Donald Trump, sem máscara, discursa sobre o coronavírus em frente aos médicos Deborah Birx e Anthony Fauci, que usam máscaras - Drew Angerer/Getty Images
Donald Trump, sem máscara, discursa sobre o coronavírus em frente aos médicos Deborah Birx e Anthony Fauci, que usam máscaras Imagem: Drew Angerer/Getty Images
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

13/07/2020 12h42Atualizada em 14/07/2020 12h06

"A maioria silenciosa reinará", tuítou o presidente Donald Trump na manhã desta segunda-feira. Depois de ter fracassado ao tentar normalizar a pandemia, restou ao americano dobrar a aposta na radicalização que deu certo em 2016, quando derrotou a democrata Hillary Clinton.

No entanto, quatro anos depois, há uma pandemia no meio do caminho. Os números dos estados do sul e do oeste americano são assustadores. A Flórida teve mais de 15 mil casos no domingo. O Arizona e o Texas estão perto de ver sua rede hospitalar entrar em colapso. O país já registrou mais de 3,3 milhões de casos de covid-19 e superou a marca de 135 mil óbitos.

O caminho da moderação, portando-se como líder responsável, está obstruído para Trump. Ele apostou tudo numa retomada da economia que traria de volta empregos enquanto o verão se encarregaria de fazer o vírus ir embora "miraculosamente". Nada disso aconteceu.

A pandemia piora nos Estados Unidos a menos de 4 meses da eleição presidencial de 3 de novembro. O democrata Joe Biden lidera nas pesquisas que medem a intenção de voto nacionalmente e também em estados decisivos para formar maioria no Colégio Eleitoral.

Sem saída política, Trump aprofundou o modo negacionista. O uso de uma máscara no sábado foi um ato implorado por assessores, mas cujo impacto se diluiu rapidamente pela justificativa do presidente. Ele disse que usou máscara porque visitava um hospital. O equipamento não faz parte da rotina presidencial, que politizou o seu uso.

Na manhã desta segunda-feira, Trump disparou uma série de tuítes e retuítes para atacar o imunologista Anthony Fauci, seu principal assessor médico na pandemia, e acusar um órgão do seu próprio governo de mentir a respeito da covid-19 a fim de prejudicá-lo na eleição.

Brigar com Anthony Fauci, integrante da força-tarefa da Casa Branca, é mau negócio para Trump. O médico trabalhou com seis presidentes. É a voz mais respeitada nos EUA do ponto de vista sanitário.

Diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, Fauci passou as duas últimas semanas contrariando as barbaridades ditas por Trump. Depois de ser escanteado na força-tarefa e ter entrevistas de TV vetadas, um médico respeitado de 79 anos de idade passou a fazer contraponto público a um presidente de 74 anos que se comporta como um adolescente mimado.

Fauci afirmou que a pandemia piorava a passos largos. Disse que a taxa de mortalidade iria crescer e não se manteria "baixa e estável", como sugeriu Trump. Criticou uma reabertura das escolas de modo precipitado, a exemplo do que aconteceu com a economia em maio. As falas dele contrastam com os raros briefings da Casa Branca sobre a covid-19 nos quais o vice-presidente Mike Pence doura pílula e a médica Deborah Birx tenta, de forma constrangedora, dar a entender que a tragédia está sob controle. Não está.

Trump retuítou nesta segunda um trecho editado de uma entrevista de Fauci na qual o médico dizia, na virada de fevereiro para março, que o risco de contrair covid-19 ainda era baixo para os americanos. A parte em que Fauci afirmava que esse cenário poderia mudar rapidamente para pior foi providencialmente retirada. O médico sempre deixou claro que se basearia em fatos para emitir suas recomendações e que não esconderia informações negativas do público.

O nível de tosco de manipulação de Trump é apontado imediatamente por uma parcela da imprensa, mas há outra, na qual a Fox News é a ponta-de-lança, que trata com ares de verdade as mentiras presidenciais.

Como fez em 2016, Trump difunde fake news e distorce a realidade para amedrontar uma base conservadora do eleitorado. "A Esquerda Radical destruirá os EUA", tuítou Trump nesta segunda.

Ao negar o agravamento do quadro epidemiológico no país, Trump propõe aos eleitores que se joguem no abismo junto com ele. Qualquer semelhança com o que acontece no Brasil não é mera coincidência.