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Nos EUA, Gilmar Mendes não precisaria recuar diante de militares

Gilmar Mendes e tuíte contra manipulação de números da Saúde - Foto: Carlos Moura/SCO/STF; Reprodução/Twitter
Gilmar Mendes e tuíte contra manipulação de números da Saúde Imagem: Foto: Carlos Moura/SCO/STF; Reprodução/Twitter
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

14/07/2020 13h19

Nos EUA, o mais graduado oficial da ativa, o general Mark Miller, pediu desculpa por ter dado a entender que os militares poderiam intervir na política doméstica.

Chefe do estado-maior das Forças Armadas, Miller foi fotografado caminhando com uniforme de combate ao lado do presidente Donald Trump em 1º de junho, dia em que manifestantes em Washington foram ilegal e duramente reprimidos na praça Lafayette por ordem da Casa Branca.

Dias depois, Miller se desculpou: "Eu não deveria ter estado lá. Minha presença naquele momento e naquele ambiente criou a percepção de envolvimento de militares em política doméstica. Como oficial da ativa, foi um erro com o qual aprendi e sinceramente espero que nós possamos aprender com ele."

Talvez os militares brasileiros, tão ávidos para agradar Washington, possam aprender algo com os seus colegas americanos. Nos EUA, Gilmar Mendes não precisaria nem deveria ter recuado. Uma pena, pois a piscada do ministro do STF transmite a mensagem de que até ele se sente intimidado pelo golpismo militar, o que enfraquece a democracia.

No sábado, o ministro do Supremo Tribunal Federal disse uma verdade quando falou que as Forças Armadas estão se associando a um genocídio no Brasil. Ao aceitar aparelhar o Ministério da Saúde no meio de uma pandemia com militares incapacitados para a função, as Forças Armadas endossaram a estratégia genocida do presidente Jair Bolsonaro para enfrentar a covid-19.

Bolsonaro disse desde o começo dessa tragédia que todo mundo acabaria pegando coronavírus, que muita gente morreria porque é da vida e que ele não podia fazer nada. Demitiu um ministro da Saúde que ousou contrariá-lo ao defender medidas sanitárias minimamente sensatas. Boicotou a quarentena. Estimulou aglomerações sem usar máscara. Receitou cloroquina. É extensa a lista de crimes de responsabilidade cometidos pelo presidente da República.

1º.jun.2020 - O presidente dos EUA, Donald Trump, posa com uma Bíblia em frente à Igreja Episcopal de St. John, em Washington, DC  - Brendan Smialowski/AFP - Brendan Smialowski/AFP
1º.jun.2020 - O presidente dos EUA, Donald Trump, posa com uma Bíblia em frente à Igreja Episcopal de St. John, em Washington
Imagem: Brendan Smialowski/AFP
O que fazem as Forças Armadas?

Têm uma reação golpista e corporativa porque um ministro do STF disse a verdade. Militares brasileiros estão, sim, associados a um genocídio porque a irresponsabilidade e a incompetência de Bolsonaro agravam os efeitos da pandemia no país. Generais da ativa e da reserva toparam ser coniventes com um capitão que Geisel considerava um mau militar.

Depois de ser claro no sábado, usando a expressão correta, que é genocídio, Gilmar Mendes divulgou nesta terça-feira uma nota para pedir uma "interpretação cautelosa" de suas palavras. Reafirmou a crítica à gestão dos militares na saúde, mas não repetiu a palavra genocídio. Deu um passo para trás diante da batida de pé do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva.

Um dos grandes problemas do Brasil é a falta de disposição para enquadrar as Forças Armadas no seu papel constitucional como fazem os EUA. O ministro da Defesa e seus colegas das três armas não deveriam ter dado um pio sobre o que disse Gilmar Mendes.

Mas o ministro da Defesa e sua "tropa" anunciaram nesta segunda que iriam se queixar ao procurador-geral da República, Augusto Aras. Em nota, Azevedo e Silva disse: "Comentários dessa natureza [de Gilmar Mendes], completamente afastados dos fatos, causam indignação. Trata-se de uma acusação grave, além de infundada, irresponsável e sobretudo leviana". E emendou: "O ataque gratuito a instituições de Estado não fortalece a democracia".

Ora, o comentário de Gilmar Mendes está plenamente de acordo com os fatos. É uma acusação responsável e fundamentada na realidade. Quem ataca leviana e frequentemente as instituições de Estado são os generais Azevedo e Silva, Eduardo Villas Bôas, Augusto Heleno e cia. Parece piada o vice-presidente Hamilton Mourão sugerir retratação.

Além de estarem se acumpliciando com Bolsonaro no tratamento irresponsável e criminoso da mais grave crise sanitária em um século, os militares estão vendo a destruição da Amazônia acontecer debaixo das suas barbas.

Esses corajosos defensores da pátria perderam a oportunidade de pedir perdão pelos crimes da ditadura de 1964 quando reagiram de forma golpista às conclusões da Comissão da Verdade. Diante da oportunidade histórica, trataram de desqualificar o relatório sobre os crimes de estado cometidos pela ditadura e deram apoio, nos bastidores, ao golpe parlamentar contra Dilma Rousseff.

São muitos éticos e patriotas desde que estejam com dinheiro no bolso. Ganharam de Bolsonaro uma reforma da Previdência cheia de privilégios e de injustiça social mais uns penduricalhos para aumentar os salários em plena pandemia.

É absurdo que nossos militares ainda se sintam em condições de dar lição de moral e cívica apesar de servirem a um genocida. Lamentável constatar: não honram as fardas que vestem.