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Ao atacar Harris, Trump expõe preconceito contra negros, mulheres e pobres

Presidente dos EUA, Donald Trump - CHERISS MAY
Presidente dos EUA, Donald Trump Imagem: CHERISS MAY
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

13/08/2020 12h05

Um tuíte de Donald Trump resume perfeitamente o racismo do presidente americano. A mensagem tem ainda as pitadas de machismo, misoginia e demofobia que compõem o pensamento de Trump.

Na quarta-feira, ele escreveu na rede social, numa reação à escolha da senadora Kamala Harris para vice de Joe Biden na chapa presidencial democrata: "As 'donas de casa dos subúrbios' votarão em mim. Elas querem segurança e ficaram satisfeitas que eu tenha acabado com um antigo programa de moradias de baixa renda que invadiram suas vizinhanças. Biden retomará o programa em formato ainda maior, com [o senador democrata] Corey Booker no comando!".

Trump tenta atrair o voto de mulheres conservadoras dos subúrbios americanos, onde há casas confortáveis da classe média, afirmando que o eventual governo democrata retomará o programa de moradia nessas localidades para pessoas de baixa renda, sobretudo negros.

Corey Booker, senador por Nova York, é um dos principais nomes da frente parlamentar negra do Congresso dos EUA.

No tuíte, Trump se refere às mulheres como "donas de casa de subúrbio". É a forma como as identifica, num machismo algo condescendente. Mulheres fortes, como a senadora Kamala Harris, são um tormento para o presidente republicano.

A indicação de Harris para vice-presidente de Biden gerou uma série de ataques de Trump. Ele procura dar apelidos depreciativos aos adversários, recorrendo ao bullying político que agrada sua base de extrema-direita.

Nos discursos e nas redes sociais de Trump e aliados, Harris é uma mulher "desagradável" (nasty, em inglês), "falsa" (phony) e "radical de extrema-esquerda" (far-left radical). Ele se refere a Joe Biden como "Dorminhoco" (Sleepy) Joe.

Kamala Harris, 55, é uma progressista com traços de moderação. Está bem distante do figurino de radical de extrema-esquerda. É chamada de "desagradável" porque questionou com firmeza aliados de Trump em depoimentos no Congresso. Seria "falsa" por ter criticado duramente Biden num debate democrata no ano passado, mas aceitado ser vice agora.

Não há dúvida de que a base mais radical do trumpismo deve ficar contente com o combo de preconceitos do atual presidente. Mas Trump precisa do voto de moderados conservadores para vencer em 3 de novembro.

O caminho obscurantista, com demofobia, machismo e supremacismo racial, tende a afastar esse tipo de eleitor e estimular motivar mulheres, jovens e negros em geral a votar contra o republicano. Como o voto nos EUA é facultativo, é importante mobilizar seus eleitores a comparecer às urnas ou enviar cédulas por correio.

A exposição visceral do trumpismo aumenta a chance de Biden conquistar a Casa Branca. As pesquisas hoje apontam favoritismo do democrata tanto no voto nacional como nos estados fundamentais para compor maioria no Colégio Eleitoral.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.