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Mau empresário, Trump afaga líderes autoritários de olho nos negócios

Genro de Trump se tornou um amigo influente do príncipe herdeiro saudita, que é suspeito de mandar matar jornalista - Stephen Crowley/The New York Times
Genro de Trump se tornou um amigo influente do príncipe herdeiro saudita, que é suspeito de mandar matar jornalista Imagem: Stephen Crowley/The New York Times
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

29/09/2020 12h51

Mais do que um caso de evasão fiscal, a reportagem-bomba do jornal "The New York Times" revelou que Donald Trump é um mau empresário que tem dívidas de curto prazo na casa dos US$ 300 milhões. Esse cenário de dificuldade econômica pessoal teria levado o americano a tomar decisões geopolíticas para agradar autocratas a fim de proteger os seus negócios no exterior e atrair clientes para os seus empreendimentos nos Estados Unidos (EUA).

Ou seja, seria um caso explícito de tráfico de influência e uso político indevido das atribuições presidenciais para proveito econômico pessoal e de sua família. Esse retrato devastador veio a público no domingo, apenas dois dias antes do primeiro debate presidencial, o que deu munição política a Joe Biden e pode colocar Trump na defensiva no encontro desta noite entre o democrata e o republicano.

O debate, que ocorrerá em Cleveland, no estado de Ohio, será transmitido às 22h de Brasília por uma parceria entre o UOL e a CNN Brasil.

No último domingo, o "The New York Times" revelou que o republicano pagou apenas US$ 750 dólares em 2016 e a mesma quantia no ano seguinte em impostos federais. Isso é 16 vezes menos do que paga por ano, em média, um contribuinte americano.

Uma investigação de quatro anos do jornal sobre a vida financeira e tributária do presidente americano, divulgada a cerca de um mês das eleições de 3 de novembro, trouxe detalhes que derrubam a imagem de um homem de negócios bem-sucedido, uma miragem política que Trump vendeu para se eleger em 2016 e que tenta sustentar até hoje.

Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin , e dos EUA, Donald Trump, se cumprimentam no G20, em  Osaka (Japão) - Kevin Lamarque/Reuters - Kevin Lamarque/Reuters
Doçura para com Putin é tanta que especula-se que Rússia guarde segredos comprometedores de Trump
Imagem: Kevin Lamarque/Reuters

Afagos em Putin

As relações políticas de Trump com a Rússia, a Turquia e a Arábia Saudita ganharam mais atenção nos últimos dias devido aos negócios do grupo empresarial do presidente americano com esses países. Há suspeitas de que Trump tomou decisões geopolíticas levando em conta mais os seus interesses pessoais do que a segurança nacional dos Estados Unidos.

A relação com Vladimir Putin, presidente da Rússia, tem sido de uma cordialidade rara na história americana. Trump trata Putin com as pitadas de submissão parecidas com as do presidente Jair Bolsonaro em relação ao colega americano.

Desde o final dos anos 80, Trump tem feito negócios na Rússia. Na imprensa americana, é frequente a especulação de que o serviço de inteligência russa tenha alguma informação comprometedora do ponto de vista pessoal ou empresarial contra Trump para explicar a forma doce como o americano se relaciona com Putin.

Sauditas têm andar na Trump Tower

Recentemente, Trump desprezou relatórios dos serviços de inteligência americano e britânico dando conta de que russos ofereciam ao Taleban um prêmio pela morte de soldados americanos no Afeganistão. Trump tratou a informação como de baixa credibilidade e não fez nada para tirar a história a limpo.

No livro do jornalista Bob Woodward, "Fúria", Trump se gaba de ter protegido Mohammed Bin Salman, príncipe da Arábia Saudita, de sofrer retaliações do Congresso americano pela suspeita de envolvimento na morte do jornalista Jamal Khashoggi.

O jornalista, que era colunista do "The Washington Post", foi assassinado dentro do consulado saudita em Istambul, na Turquia. Amigo de Trump, Bin Salman é suspeito de ser o mandante.

A Arábia Saudita também comprou um andar inteiro na Trump Tower em Nova York. O presidente americano vive convidando políticos e empresários sauditas para se hospedarem em seus resorts de golfe nos EUA. Segundo a imprensa americana, Trump usa a condição de presidente para promover eventos em suas propriedades na área de hotelaria e lazer.

Mudança na política em relação à Turquia

No que se refere à Turquia, uma decisão de Trump chocou os militares americanos. O presidente decidiu em 2019 quebrar a aliança que tinha com os curdos no Oriente Médio, o que deixou esse povo à mercê de ataques turcos. Aliados fiéis dos americanos na guerra contra extremistas islâmicos, os curdos passaram a lutar praticamente sozinhos com a Turquia.

O grupo Trump possui negócios imobiliários na Turquia. O genro do presidente americano, com cargo de assessor especial na Casa Branca, Jared Kushner, tem relações de amizade com políticos e empresários turcos.

Ora, é um risco óbvio para a segurança nacional dos Estados Unidos que um presidente endividado e dono de grupo empresarial em apuros tenha relacionamentos tão inapropriados com autocratas e países estrangeiros que podem alavancar os seus negócios. Trump não teria força para defender os EUA nos embates geopolíticos tradicionais da maior potência do planeta com outros países.

Essa característica da Presidência de Trump tem sido ressaltada como nunca antes na imprensa americana, que também avalia que o presidente pode vir a responder por fraude fiscal e não evasão. Há uma investigação em curso no Ministério Público de Nova York. Fraude fiscal dá cadeia nos EUA. O pagamento de cerca de US$ 740 mil à filha Ivanka, já contratada do grupo Trump, é descrito por especialistas em finanças como fraude fiscal.

Esses assuntos deverão vir à baila no debate desta noite entre Trump e Biden.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.