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Kennedy Alencar

Harris se sai pouco melhor que Pence, mas debate dos vices não mudará nada

Pence x Harris: debate com candidatos a vice-presidente dos EUA -
Pence x Harris: debate com candidatos a vice-presidente dos EUA
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

08/10/2020 00h14

Num tom que destoou do confronto entre Donald Trump e Joe Biden, o debate entre os dois candidatos a vice, Mike Pence e Kamala Harris, respectivamente, foi civilizado e normal, o que é notícia numa campanha eleitoral agressiva e polarizada.

Harris e Pence se comportaram como vices que podem ser candidatos em 2024, o que os levou a adotar um tom de fidelidade aos titulares das chapas, mas com preocupação em se mostrarem presidenciáveis. Ou seja, foi um debate em que os dois jogaram na defesa, com poucos ataques. Pensaram na eleição seguinte.

Pence foi mais provocativo. Desrespeitou mais vezes o tempo e foi mais instado pela moderadora, a jornalista Susan Page, do jornal "USA Today", a encerrar as suas respostas. Mas Harris se saiu melhor. Respondeu mais objetivamente do que Pence e não teve que defender mentiras do cabeça de chapa.

O vice-presidente repetiu as palavras de Trump e não se comprometeu com uma transição civilizada. Voltou a endossar teorias conspiratórias sobre fraude na votação via correio. Pence seguiu o padrão Trump de falar mentiras, como dizer que o presidente salvou mais de dois milhões de vidas ao restringir viagens da China para os EUA no início do ano. Ele recorreu a fake news com um tom de voz moderado e mais respeitoso que amenizava as falsidades. Até agradeceu a Harris e Biden pelas palavras de pronta recuperação para Trump, que está infectado pelo coronavírus.

Harris respeitou mais as regras. Foi menos advertida pela moderadora. Primeira mulher negra a integrar uma chapa presidencial com chance de chegar à Casa Branca, ela fez história. E sabia disso. Foi "presidencial", para adotar uma descrição cara à imprensa americana.

O melhor momento dela foi logo no início, quando disse que a administração Trump mentiu ao povo americano mesmo sabendo desde o fim de janeiro que o coronavírus era uma ameaça grave e letal. Pence saiu pela tangente, tentando dizer que a democrata não dava crédito ao povo americano, que reagira com bravura e presteza contra a pandemia.

As regras não permitiram um debate de verdade. O formato com perguntas da entrevistadora por blocos temáticos esfriou o confronto. Seria melhor um indagar ao outro. Susan Page, a moderadora, fez duas entrevistas com comentários de ambos os vices, comportadíssimos se comparados ao confronto entre Trump e Biden em 29 de setembro.

Outro momento bom da democrata foi questionar as informações de que Trump pagou apenas 750 dólares de imposto em 2016 e a mesma quantia no ano seguinte, quando chegou à Casa Branca.

Pence não teve um grande momento, mas emulou o presidente, atribuindo à vice e a Biden afirmações que os dois não fizeram, como aumentar impostos de todos os americanos no primeiro dia de governo democrata. Harris precisou, por exemplo, dizer inúmeras vezes que Biden dissera que não subirá impostos de quem ganha até 400 mil dólares por ano.

A democrata disse que Trump e Pence perderam a guerra comercial com a China, levando à destruição de empregos nos EUA. Foi um raro momento em que os dois travaram uma discussão qualitativa sobre as ações dos governos Obama e Trump na relação com Pequim e na área comercial.

Harris também destacou que o presidente americano prefere acreditar no presidente da Rússia, Vladimir Putin, do que na inteligência dos EUA, que apresentou a Trump a informação de que Moscou prometeu recompensa ao Taleban pela morte de soldados americanos no Afeganistão. Harris disse que Trump falou seis vezes com Putin e não tratou do assunto. Segundo ela, Biden cobraria o russo.

Enquanto Harris e Pence debatiam os protestos contra o racismo estrutural, uma mosca pousou no cabelo do vice e ficou meio aninhada ali por alguns minutos até voar para longe. A mosca não pousou na sopa de Pence, mas criou uma oportunidade para memes sobre o debate.

Em resumo, ele teve de rebolar para demonstrar fidelidade a um presidente difícil de ser defendido, mas entregou a mercadoria. Ela confirmou ter uma afinidade mais sincera com Biden, o que tornou a sua missão mais fácil do que a do oponente.

Melhor aguardar os próximos lances do confronto entre Trump, que teve a ousadia de gravar um vídeo dizendo que pediu a Deus para ter covid-19, e Biden, que invocou o republicano Abraham Lincoln para combater a divisão do país. Esse debate dos vices não mudará nada na eleição americana.