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Kennedy Alencar

Joe Biden é franco favorito nos EUA porque 2020 é bem diferente de 2016

Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

11/10/2020 04h02

O presidente Donald Trump espera repetir a vitória surpreendente que teve há quatro anos. Mas 2020 é bem diferente de 2016. O cenário político é outro. Por isso, o democrata Joe Biden tende a conquistar a Casa Branca na eleição de 3 de novembro.

Em 2016, Trump era um candidato de oposição, um franco-atirador que podia se vender como disruptivo e prometer mundos e fundos. Passados quatro anos, ele tem um governo real a ser julgado. Em campanhas com um candidato à reeleição, ocorre basicamente um referendo sobre os atos de quem está no poder.

O bom desempenho econômico que herdou do governo Obama (2009-2016) foi varrido do mapa pela pandemia, que jogou os Estados Unidos na maior recessão desde a Grande Depressão dos anos 30 do século passado. Trump perdeu o seu principal ativo reeleitoral.

A resposta desastrosa à pandemia de coronavírus tem tido efeito negativo para o presidente americano. As pesquisas mostram que cerca de dois terços dos entrevistados desaprovam a forma como ele enfrentou a covid-19.

Como o presidente contraiu o coronavírus, a pandemia voltou a dominar o debate eleitoral. Quem dita o tema da agenda pública costuma levar vantagem. Trump tenta tirar a pandemia de cena, mas a chegada do outono elevou o número de internações em estados do meio-oeste americano, o que é uma notícia ruim para o republicano.

Um argumento recorrente de Trump é que as pesquisas não são confiáveis e deverão errar novamente. Esse é um argumento impreciso. Em alguns estados importantes para formar maioria no Colégio Eleitoral, havia pesquisas indicando uma disputa apertada e imprevisível. Mas a versão que prevaleceu, repetida por Trump diversas vezes, foi a de um erro coletivo das pesquisas, apesar de Hillary ter vencido no voto nacional como elas apontaram.

Desde então, os institutos revisaram metodologias para captar melhor o voto do eleitorado branco, sobretudo do homem sem diploma universitário. Este segmento do eleitorado ainda está majoritariamente com Trump. Segundo pesquisa da CNN, 67% dos homens sem diploma universitário pretendem votar no presidente.

Biden tem cenário melhor do que o de Hillary em 2016

A menos de um mês das eleições, Biden tem uma vantagem maior nas pesquisas do que possuía a democrata Hillary Clinton em 2016.

Na média das pesquisas do voto nacional, ele está cerca de 10 pontos percentuais acima de Trump. Hillary tinha vantagem de cerca de 6 pontos percentuais. Até no grupo de estados considerados decisivos no Colégio Eleitoral, Biden está em situação mais confortável do que Hillary. Na reta final da disputa, o atual candidato democrata ostenta números bem melhores em estados como Pensilvânia, Wisconsin e Michigan, nos quais Trump venceu em 2016.

No sistema eleitoral americano, não basta ganhar no voto popular. Hillary derrotou Trump, mas perdeu para ele no Colégio Eleitoral, que tem 538 delegados. É preciso, no mínimo, maioria absoluta de 270 delegados para ser eleito. Há projeções que apontam vitória de Biden com variações de 290 a 330 votos no Colégio Eleitoral, a depender da combinação de resultados.

Uma diferença fundamental em 2020 é a união do Partido Democrata. Em 2016, a vitória de Hillary Clinton sobre o senador Bernie Sanders, da esquerda democrata, dividiu a legenda. Isso teve influência sobre o comparecimento dos eleitores.

Michelle Obama é cabo eleitoral de Biden e se empenha em convencer americanos a irem às urnas - AFP PHOTO / DEMOCRATIC NATIONAL CONVENTION - AFP PHOTO / DEMOCRATIC NATIONAL CONVENTION
Michelle Obama é cabo eleitoral de Biden e se empenha em convencer americanos a irem às urnas
Imagem: AFP PHOTO / DEMOCRATIC NATIONAL CONVENTION
A luta para fazer americanos irem votar

Nos EUA, o voto não é obrigatório como no Brasil. É fundamental mobilizar a sua base a votar. Parte da base democrata, contrariada com a derrota de Sanders, não marcou presença. Outra parcela democrata subestimou as chances de Trump, imaginando que a parada estava ganha.

Em 2020, há uma unanimidade dos líderes democratas em torno de Biden. Eles têm feito campanha para que os eleitores votem. A ex-primeira-dama Michelle Obama, que tem alta popularidade, está na linha de frente dos pedidos para que os eleitores votem como se suas vidas dependessem disso. Bernie Sanders incentiva sua base jovem e progressista a votar em Biden. Há expectativa de menor abstenção de eleitores democratas neste ano.

Se eleito, o democrata deverá a vitória a dois segmentos importantes do eleitorado: o voto negro e o voto feminino. Pesquisa recente do jornal "The Washington Post" e da rede de TV ABC mostrou que Biden obtém 65% de intenção de voto entre as mulheres contra 34% de Trump.

Segundo pesquisa da Universidade de Quinnipiac, 83% dos eleitores negros preferem o democrata. Apenas 11% pretendem votar em Trump.

Voto moderado pende para Biden neste ano

O comportamento sexista do presidente causou dano entre as eleitoras. Parece um tiro no pé Trump chamar a candidata a vice-presidente de Biden, Kamala Harris, de "monstro" e "comunista". A misoginia do presidente foi frequente com as repórteres que cobrem a Casa Branca e políticas democratas, como a presidente da Casa dos Representantes, Nancy Pelosi, e a governadora do Michigan, Gretchen Whitmer.

A resposta de Trump aos protestos contra a violência policial e o racismo estrutural também prejudicou o desempenho do republicano entre os eleitores negros. O presidente tem se comportado de modo racista no cargo, evitando condenar supremacistas brancos e extremistas de direita.

Hoje, uma parcela da população branca apoia o movimento "Black Lives Matter" (Vidas Negras Importam, em português). Um voto branco moderado tem sido mais refratário a Trump em 2020 do que em 2016. Biden tem avançado numa parcela do eleitorado branco moderado que não gostava de Hillary, mas tem simpatia por ele.

Esses fatores combinados sustentam o amplo favoritismo de Biden. Segundo o site "Real Clear Politics", que faz uma média das pesquisas, o democrata tem 51,6% contra 42% no voto nacional, uma vantagem de 9,6 pontos percentuais. Em 17 estados considerados mais disputados, a dianteira de Biden cai para 4,5 pontos percentuais, praticamente a metade. Ele tem 49,1% contra 44,5% de Trump na média das pesquisas.

Nas apostas do "Real Clear Politics", a chance de vitória de Biden é de 65% contra 34,4%. O democrata é franco favorito. Há uma complicada combinação de fatores que poderia levar à vitória de Trump, mas o cenário mais provável é que o republicano seja um presidente de um mandato só.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.