PUBLICIDADE
Topo

Kennedy Alencar

Trump é responsável por inspirar milícia a tramar sequestro de governadora

Protesto contra quarentena nos EUA tem carreata, armas e símbolo nazista - JEFF KOWALSKY / AFP
Protesto contra quarentena nos EUA tem carreata, armas e símbolo nazista Imagem: JEFF KOWALSKY / AFP
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

08/10/2020 14h45

A descoberta de um plano de uma milícia de extrema direita para sequestrar a governadora do Michigan, Gretchen Whitmer, e derrubar sua administração, é resultado direto da irresponsabilidade com que o presidente Donald Trump divide os americanos e estimula a violência no debate público. Com sua ação autoritária, ele inspira conspirações desse tipo.

O FBI, equivalente à Polícia Federal no Brasil, anunciou nesta quinta-feira que descobriu os planos de seis homens para sequestrar a democrata Gretchen Whitmer. Houve uso de um agente infiltrado que participou de reuniões nas quais foram discutidos como agredir violentamente governos estaduais que os milicianos entendiam estar violando a Constituição americana na pandemia.

A ideia do coordenador da conspiração, Adam Fox, era utilizar cerca de 200 milicianos para tomar o poder no Michigan. O plano a previa acusar a governadora de traição e executar a ação antes das eleições de 3 de novembro. Esse grupo chegou a monitorar a rotina da governadora. O FBI apresentou acusações de conspiração para sequestro contra seis homens. Há outras sete pessoas acusadas de terrorismo doméstico no nível estadual.

Ao longo do ano, Trump publicou diversos posts nas redes sociais criticando a forma como a governadora do Michigan lidava com a pandemia. Ela deu uma das respostas mais duras ao coronavírus, o que provocou protestos de segmentos da população contra as ordens de quarentena severa.

No mês de maio, milicianos fortemente armados entraram na sede do Legislativo do Michigan, na cidade de Lansing. Foi uma cena típica da distopia de um país radicalizado e armado até os dentes.

No mês de abril, Trump incentivou um levante em três estados americanos contra as ordens de fechamento da economia e de quarentena em casa. No Twitter, ele postou uma mensagem que dizia "Libertem o Michigan".

Constituição é usada para estimular armamento

Ele também escreveu tuíte semelhante em relação aos estados de Minnesota e Virgínia, sempre no contexto de que cidadãos deveriam recorrer à segunda emenda da Constituição, que garante o direito de se armar, para enfrentar os governos estaduais.

É legítimo supor que a os tuítes presidenciais inspiraram planos de milicianos de extrema direita, normalmente supremacistas brancos, para planejar o ataque contra a governadora Whitmer.

Em 1º de maio, Trump escreveu no Twitter, sendo condescendente mais uma vez com extremistas de direita: "A governadora do Michigan deveria ceder um pouco para apagar o incêndio. Essas pessoas são gente muito boa, mas estão com raiva. Eles querem a vida deles de volta, de forma segura. Encontre-os, converse com eles e faça um acordo".

Nos seus quatro anos de governo, Trump se revelou um presidente racista. Logo no seu primeiro ano de administração, em agosto de 2017, o presidente americano fez uma falsa equivalência entre manifestantes pacíficos e violentos quando comentou ataques de supremacistas brancos contra pessoas que pediam a remoção de uma estátua do general confederado Robert Lee na cidade de Charlottesville, no estado de Virgínia. O presidente disse que "havia pessoas muito boas nos dois lados".

Em setembro deste ano, a governadora disse que Trump era "a maior ameaça ao povo americano". Ela é uma crítica incisiva da forma como o presidente lidou com a pandemia de coronavírus. Os EUA já tiveram mais de 212 mil mortes por covid-19 e mais de 7,5 milhões de casos de infectados por coronavírus.

Milicianos tramavam guerra civil, diz FBI

Em entrevista no início da tarde desta quinta-feira, oficiais do FBI disseram que os milicianos queriam dar início a uma espécie de guerra civil no Michigan. A forma irresponsável e divisionista como Trump governa e se refere aos adversários estimula a violência num país em que há mais armas do que pessoas. Existem aproximadamente 400 milhões de armas registradas num país com população de cerca de 330 milhões de habitantes.

Ao pregar cotidianamente que haverá fraudes nos votos via correio, ao se recusar a aceitar uma transição pacífica e ao tratar adversários como inimigos, Trump é o pai do clima de crescente violência verbal e física nos Estados Unidos. Ele dinamita abertamente a democracia americana.

O comportamento autoritário de Trump na Presidência dá sinal verde para extremistas de direita, que são considerados pelo próprio FBI a maior ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos. O caso da governadora Whitmer confirma os piores temores do FBI.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.