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Com joinha de eleitora, Trump mente e dá respostas vagas em sabatina na TV

O presidente dos EUA, Donald Trump - TOM BRENNER/Reuters
O presidente dos EUA, Donald Trump Imagem: TOM BRENNER/Reuters
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

15/10/2020 22h34

Num programa na noite desta quinta-feira na rede de TV NBC, o presidente Donald Trump repetiu a estratégia que usou no debate de 29 de setembro contra o democrata Joe Biden: falar sem parar e mentir para responder a questões da apresentadora e de eleitores.

Trump afirmou que apoiava o uso de máscaras, apesar de fazer comícios com pessoas que não cobrem o rosto. Mentiu ao insinuar que Anthony Fauci, infectologista que serviu a seis presidentes e integra a força-tarefa da Casa Branca contra o coronavírus, seria até hoje contra o uso de máscaras. "Doutor Fauci disse para não usar máscaras."

No início da pandemia, quando faltavam equipamentos de proteção para profissionais de saúde, Fauci não recomendou o uso da máscara. Mas logo depois, diante das evidências de que funcionava para diminuir o risco de contrair covid-19, Fauci passou a usar máscara em todas as suas aparições públicas e a incentivar a sua adoção constante.

No começo do programa, uma espécie de sabatina, Trump fugiu de uma série de perguntas da apresentadora Savannah Guthrie. Não respondeu quando fez o último teste de covid-19 que deu negativo antes do exame de 1º de outubro que confirmou que ele adquirira o coronavírus. "Não sei, não me lembro", respondeu. Ele disse que faz testes com frequência e que, "provavelmente", realizou um no dia do debate contra Biden, mas não foi assertivo de propósito. Trump simplesmente esconde essa informação, fundamental para saber se interagiu com pessoas sabendo que estava infectado.

Quando falava das razões para fazer comícios em plena pandemia, ele disse que não podia ficar trancado numa sala na Casa Branca. "Como presidente, não posso ficar no porão", repetindo insinuação que faz contra Biden. O democrata tem feito atos de campanha mais discretos e obedientes às normas sanitárias.

Trump saiu no lucro na sabatina da NBC. Atrás dele, havia uma eleitora que sempre balançava a cabeça em concordância com o que o republicano dizia. Negra, ela assentiu quando Trump disse que foi o presidente que mais fez pelos afro-americanos desde Abraham Lincoln, que aboliu a escravidão. Isso é mentira.

No fim do programa, enquanto respondia por que os eleitores indecisos deveriam dar a ele um segundo mandato, a eleitora fez um joinha e aplaudiu efusivamente o presidente. Foi uma noite boa para Trump, com perguntas leves para quem está em apuro nas pesquisas na reta final das eleições de 3 de novembro. A apresentadora Savannah até tentou apertar, mas ele não escorregou nenhuma vez.

Trump voltou a dizer que tudo era culpa da China, que a economia já está voltando a ser uma maravilha, que haverá fraude em massa no voto pelo correio e que sempre condenou supremacistas brancos. Fez o tradicional jogo de desinformação e mentiras sem ficar corado.

No mesmo horário, na rede de TV ABC, Biden participou de um programa semelhante e de duração mais longa, no qual também respondeu a perguntas de eleitores. Ele repetiu que Trump falhou na resposta à pandemia. O democrata prometeu, se eleito, falar com governadores e prefeitos para que tornem obrigatório o uso de máscaras durante a pandemia. Biden disse a uma eleitora que tomaria uma futura vacina contra a covid-19 se as autoridades sanitárias disserem que é segura.

O democrata voltou a tergiversar se aumentará o número de ministros da Suprema Corte se for eleito para diluir a maioria conservadora de 6 a 3 com a provável confirmação pelo Senado da juíza federal Amy Coney Barrett, indicada por Trump para o tribunal. Apesar de ter dito que não é fã da solução, defendida por alguns correligionários, ele tem fugido de uma resposta clara a essa pergunta nas entrevistas.

Na próxima quinta-feira, dia 22, Trump e Biden farão o segundo e último debate presidencial em Nashville, no Tennessee.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.