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Kennedy Alencar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ao contrário de 1964, não há na sociedade interesse em golpe de estado

Jair Bolsonaro - Isac Nóbrega/Presidência da República
Jair Bolsonaro Imagem: Isac Nóbrega/Presidência da República
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

30/03/2021 17h25

Em 1964, havia a Guerra Fria, o aval dos EUA, o fantasma do comunismo agitado por uma elite irresponsável e o apoio de setores da sociedade civil a um golpe de estado. Existia um clima propício a um golpe que duraria 21 anos. Que motivos haveria hoje para as Forças Armadas defenderem um autogolpe do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que chegou ao cargo via eleição?

Não há nenhuma razão para defender uma aventura autoritária de Bolsonaro, que faz um governo péssimo. Em 1964, havia setores da sociedade civil mobilizados para apoiar uma ditadura na defesa de seus interesses econômicos e políticos. Hoje, há uma minoria de viúvas de Brilhante Ustra que pede intervenção militar a militares que não querem intervir.

O fracasso do líder do PSL, Major Vitor Hugo (GO), em tentar colocar em votação um projeto para conceder poderes de situação de guerra a Bolsonaro em plena pandemia é um reflexo da falta de apoio a uma tentativa golpista. Bolsonaro está enfraquecido. Mais poder para ele na pandemia? Só se for para adoecer e matar mais gente, que é o resultado da política sanitária do governo.

A gestão da pandemia é desastrosa. Bolsonaro apostou numa estratégia de imunidade de rebanho negligentemente homicida. Boicotou máscaras, vacinas e medidas de mitigação da pandemia. O país sofre um colapso hospitalar. Há mais de 300 mil mortos. O Brasil virou celeiro de novas variantes de coronavírus que preocupam o mundo.

Há motivos para o impeachment de Bolsonaro, mas as instituições que poderiam viabilizar a saída constitucional do genocida estão mais preocupadas em se omitir do que em apoiar um autogolpe.

A condução da economia pelo ministro Paulo Guedes é outro desastre da administração Bolsonaro. O desemprego cresceu. Não há um plano concreto para o país voltar a crescer. Só a conversa fiada de Guedes e desses analfabetos políticos da Faria Lima.

Sem saber governar, Bolsonaro bate no peito, faz bravatas e se comporta como candidato a ditador.

Qual é o resultado concreto em apoio militar aos seus arroubos autoritários? Mais perda de apoio no meio militar. Cresce a insatisfação entre os oficiais da ativa a Bolsonaro. As Forças Armadas já enxergaram que se meteram noutra aventura e que pagarão um preço alto por isso.

A saída de Fernando Azevedo e Silva da Defesa e a partida dos atuais comandantes das Forças Armadas representam mais apoio a Bolsonaro no meio militar? Não. As saídas desses militares de seus postos mostram que o presidente perdeu apoio. Azevedo e Silva chegou a endossar nota golpista contra ministro do STF, por exemplo. Ontem, estava dando aula de republicanismo ao falar que preservou as Forças Armadas como instituições de Estado.

O genocida precisa é tomar cuidado com o vice-presidente, o general Hamílton Mourão. Se continuar a brincar de Forte Apache, pode acabar se dando mal e viabilizar um impeachment.

As brigas do presidente contra governadores e prefeitos têm de ser vistas no contexto da preocupação com a reeleição. Bolsonaro quer achar uma desculpa eleitoral para apresentar nas eleições de 2022. Daí tentar vender que Estados, prefeitos, STF e imprensa não o deixaram governar. Ele tenta construir uma falsa narrativa sobre seus fracassos na pandemia e na economia.

Em resumo, não há comoção nos quartéis para dar a apoio a um golpe. Existem os passadores de pano que querem posar de adultos na sala, como o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que se omite ao não instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar os crimes do presidente na pandemia. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e o procurador-geral da República, Augusto Aras, são omissos como Pacheco.

Cada vez mais dependente do Centrão, Bolsonaro é hoje um leão desdentado, cercado pela rachadinha que contamina as finanças da família, pelo genocídio em curso com sua gestão desastrosa da pandemia e pelo fracasso econômico de um ministro incompetente como Paulo Guedes.

Quem topa ser golpista para apoiar um fiasco dessa magnitude? Quem quer ficar na foto de um autogolpe do pior presidente da história do país? Alguns militares já começaram a dar no pé.

O que Bolsonaro tem é medo das urnas em 2022. Sabe que a hora dele está chegando.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL