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Kennedy Alencar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Que religião é essa?

O bispo Edir Macedo, da Universal do Reino de Deus, tomou vacina nos EUA - Alan Santos/PR
O bispo Edir Macedo, da Universal do Reino de Deus, tomou vacina nos EUA Imagem: Alan Santos/PR
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

06/04/2021 16h50

Certos temas têm de ser enfrentados na sua plenitude. É falso dizer que não se trata de um debate religioso manter o fechamento de igrejas e templos para missas e cultos no auge da pandemia de coronavírus no Brasil.

Esta não deve ser apenas uma discussão jurídica ou sanitária. Do ponto de vista sanitário, tem de fechar porque as pessoas se infectam, adoecem e morrem ao se aglomerar. É consenso entre os especialistas que missas e cultos presenciais são bons para o coronavírus e perigosos para as pessoas.

Juridicamente, é certo apoiar governadores e prefeitos que querem igrejas e templos fechados em benefício da saúde pública. Apesar do grau de impopularidade da medida, é a coisa politicamente correta a ser feita neste momento.

Mas este também é um debate sobre religiosidade.

A liberdade religiosa não está ameaçada. As pessoas podem continuar a exercê-la sem precisar se aglomerar numa hora de tragédia sanitária.

Que crença é essa que se sente tolhida pelo impedimento temporário de frequentar um culto presencial?

Que tipo de líder religioso quer arregimentar fiéis no pior momento da pandemia?

Só o tipo que trata a fé como mercadoria e não se importa com a vida humana. Na sua maioria, são bispos e pastores preocupados em arrecadar o dízimo sem se preocupar se seus fiéis correrão o risco de morrer.

É injusto generalizar. Mas é evangélica a maioria dos religiosos que deseja manter os templos abertos. Nesse segmento, há forte apoio ao presidente Jair Bolsonaro, que implementa uma política sanitária genocida ao adotar uma estratégia irresponsável de imunidade de rebanho.

Nas últimas décadas, cresceu no Brasil o número de bispos e pastores que transformou a fé num modo de vida, enriquecendo, sobretudo, à custa dos mais pobres. Há igrejas evangélicas que montaram verdadeiras franquias para fazer dinheiro Brasil afora. Todas as igrejas contam com imunidade tributária. Ou seja, não pagam impostos, o que é injusto com o conjunto da sociedade.

Cada vez mais enfraquecido politicamente devido ao desastre do seu governo, Bolsonaro se agarra a quem pode. No caso, ele tem tido ótima aliança com líderes de igrejas evangélicas que vão se vacinar nos Estados Unidos mas, uma vez no Brasil, pregam a aglomeração de fiéis sem imunização.

A fé de Bolsonaro está mais para fake news do que para uma religiosidade autêntica. Trata-se de um presidente que dá provas reiteradas de não se importar com a vida das pessoas, comportamento semelhante ao da parcela de bispos e pastores que quer fazer cultos presenciais quando o Brasil bate recorde de mortes por covid-19.

Uma religiosidade verdadeira e empática não agiria com a irresponsabilidade de Bolsonaro e de seus mercadores da fé. Para piorar a situação, essa gente tem no Supremo Tribunal Federal um ministro como Nunes Marques, que, no sábado, decidiu liberar missas e cultos nacionalmente.

Entre os danos que Bolsonaro causa ao Brasil, a indicação de dois ministros para o Supremo será um dos mais prejudiciais, porque terá longa duração a presença na corte de figuras sem preparo para a função. Outro malefício de Bolsonaro é usar e abusar da religiosidade para manipular politicamente eleitores.

Que ninguém se engane. Bolsonaro, Nunes Marques e esses bispos e pastores oferecem a paz dos cemitérios aos brasileiros.

O Supremo Tribunal Federal tem o dever de derrubar a decisão de Nunes Marques nesta quarta-feira. É imperativo corrigir uma irresponsabilidade negligentemente homicida de quem se submete aos cálculos eleitorais do genocida e sacrifica o interesse maior da saúde pública.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL