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Kennedy Alencar

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Evasivo na CPI, Queiroga é incapaz de enfrentar negacionismo de Bolsonaro

21.abr.21 - Ministro Marcelo Queiroga em entrevista coletiva - Reprodução/YouTube
21.abr.21 - Ministro Marcelo Queiroga em entrevista coletiva Imagem: Reprodução/YouTube
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

06/05/2021 12h12

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse à CPI da Pandemia ter atuação "técnica" na pasta, mas se comportou como um negacionista afinado com o presidente Jair Bolsonaro na resposta desastrosa à pandemia de coronavírus. Queiroga agiu com medo de contrariar o presidente.

Queiroga foi incapaz de responder ao relator da CPI, o senador Renan Calheiros (MDB-AL), se concordava ou não com Bolsonaro a respeito das recomendações de "tratamento precoce" e de uso de cloroquina contra a covid-19. Fugiu de seguidas tentativas do relator, que, ao final de discussão com senadores governistas, desistiu de obter a resposta objetiva que pedia (sim ou não).

A ciência já tem posição clara contra o "tratamento precoce" e o medicamento que Bolsonaro continua a recomendar publicamente. Cloroquina funciona contra a malária. Tem efeitos colaterais. Não funciona contra a covid. Se adotada contra o coronavírus, pode criar complicações cardíacas e levar à morte. Não existe debate técnico, com duas correntes, como disse Queiroga.

O ministro da Saúde se negou a responder à pergunta para não discordar publicamente do presidente e para evitar ser responsabilizado por recomendar droga ineficaz e perigosa contra a covid. Com pessoas correndo risco por tomarem remédios inadequados, é uma irresponsabilidade o ministro da Saúde não condenar o uso de cloroquina e ivermectina, por exemplo. Queiroga é cardiologista, o que torna sua covardia mais letal quando pessoas escutam Bolsonaro recomendar medicamentos que podem fazer mal à saúde.

Com uma retórica a la Odorico Paraguaçu, Queiroga deu respostas evasivas às indagações de Renan. Perguntado o que teria faltado para evitar as mais de 400 mil mortes no Brasil, ele respondeu: "O fortalecimento do nosso Sistema Único de Saúde".

Ora, faltaram e faltam vacinas que não foram compradas com antecedência por ordem de Bolsonaro. Faltou e falta uma liderança responsável do presidente, que decidiu sabotar todas as medidas de mitigação, como uso da máscara, distanciamento social e quarentenas.

O ministro da Saúde disse que "não poderia fazer juízo de valor" sobre Bolsonaro ameaçar editar decreto acabando com o poder de estados e municípios para determinar quarentenas. Segundo Queiroga, ele não tem sido consultado sobre esse decreto, mais uma bravata presidencial porque o Supremo Tribunal Federal já decidiu que governos e prefeitos têm poderes para tomar medidas restritivas a fim de combater a pandemia.

Renan disse que, com sua resposta, Queiroga confirmava a existência de um "aconselhamento paralelo" ao presidente e mais uma exclusão do Ministério da Saúde de uma discussão importante na crise sanitária.

O ministro da Saúde não soube responder quantas doses já estavam contratadas pelo governo. Falou em 560 milhões, mas foi corrigido por um auxiliar de que seriam 430 milhões, uma diferença 130 milhões de doses. Haja despreparo.

Quando o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) perguntou sobre Bolsonaro ter acusado a China de fazer "guerra química" com o coronavírus, Queiroga disse desconhecer tal intento, noutra resposta evasiva. Ora, isso é mais uma mentira dita pelo presidente que só piora a relação com a China, de quem o Brasil depende para produzir vacinas.

Logo no começo, o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), resumiu o depoimento de Queiroga. "Não é objetivo". Ao longo de todo o depoimento, o ministro manteve a mesma tônica de omissão em relação à sabotagem de Bolsonaro ao combate à pandemia.

Senadores governistas tentaram impedir Renan de fazer questões. Foram acusados por Randolfe Rodrigues (Rede-AP) de tentar obstruir trabalhos da comissão.

Há 45 dias no ministério, Queiroga continuou com a ladainha do "voto de confiança", de unir o país e do trabalho "técnico". É um lobo em pele de cordeiro, do tipo que pede a empresários um boicote à imprensa da qual discorda e baixa a cabeça para os crimes comuns e de responsabilidade do presidente.

Bolsonaro continua a ser o principal problema para o país enfrentar a pandemia. Enquanto o presidente estiver no poder, o Brasil estará condenado a sofrer mais do que precisaria, com mais mortes e mais doentes do que ocorreria com uma atitude de respeito à ciência.

Queiroga confirmou o que já se sabia: ele não tem condição técnica nem disposição política de enfrentar o negacionismo de um governo que ele disse não ser negacionista.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL