PUBLICIDADE
Topo

Kennedy Alencar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Curados" provam estratégia assassina de Bolsonaro para disseminar vírus

Em Manaus, agente funerário remove corpo de vítima da covid-19 (janeiro, 2021) - Tommaso Protti/UOL
Em Manaus, agente funerário remove corpo de vítima da covid-19 (janeiro, 2021)
Imagem: Tommaso Protti/UOL
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

19/06/2021 14h15

Para tentar amenizar a tragédia de meio milhão de mortos, o Ministério da Saúde alardeia que o Brasil tem 16 milhões de "curados" da covid-19. Na verdade, o que o governo federal tenta vender como algo positivo prova a estratégia assassina de disseminar o vírus adotada pelo presidente Jair Bolsonaro.

Tantos recuperados significam que milhões adoeceram sem necessidade porque Bolsonaro deixou, intencionalmente, que o novo coronavírus corresse solto pelo país. O presidente sabotou o trabalho de governadores e prefeitos para mitigar os efeitos da pandemia e desprezou a compra de vacinas que poderiam ter evitado boa parte das mortes e infecções.

Com motociatas e aglomerações sem uso de máscara, o presidente continua a tentar implementar a estratégia de imunidade de rebanho, atitude negligentemente homicida e cientificamente condenada. Ou seja, contaminar uma fatia tão grande da população, algo como 70% dos brasileiros, para que a taxa de infecção caia.

No entanto, no caminho para que se adquira alguma imunidade natural e talvez temporária, recuperando-se da doença, há um alto preço a pagar. A letalidade é devastadora. Muitos morreram, morrem e morrerão. Muitos adoeceram, adoecem e adoecerão.

São vidas que poderiam ter sido salvas se o presidente tivesse tido o mínimo de responsabilidade. São infecções que não precisariam ter ocorrido se o principal mandatário do país usasse seriamente a máscara e recomendasse com ênfase o distanciamento social, mas o presidente é um mau exemplo para a população.

Desses 16 milhões de "curados", quantos terão sequelas que diminuirão a sua expectativa de vida? Quantos terão piora na sua qualidade de vida? Quantos recorrerão ao SUS, estressando ainda mais o já sobrecarregado Sistema Único de Saúde?

Ninguém sabe.

Sabe-se que há possibilidade de o novo coronavírus funcionar como um gatilho perigoso. Estudam-se efeitos posteriores nas áreas neurológica e cardiovascular, por exemplo. O neurocientista Miguel Nicolelis disse que "esse é um vírus para não se entrar em contato" devido ao risco de provocar outras doenças.

O que faz Bolsonaro? Trabalha para o maior número de brasileiros se infectar. Todo dia, vomita falas homofóbicas, negacionistas, mentirosas e perversas, como a dos "maricas" que temeriam a doença por covardia e a de que se contaminar seria mais eficiente para se proteger do que se vacinar. Só que o imunizante não mata. A covid-19 e Bolsonaro matam.

Mas, com o genocida, tudo pode sempre piorar. Quando se trata do número de mortes, Bolsonaro divulga fake news sugerindo que há supernotificação de óbitos por covid-19. A realidade é outra: os dados reais de mortos e "recuperados" são subnotificados.

Estamos contando 500 mil vidas perdidas nesta data. Certamente, mais gente morreu e existem bem mais do que 16 milhões de "curados".

Arma preferida do presidente e de seus filhos políticos, o uso da mentira como método procura fazer uma correlação entre os 16 milhões de "curados" e o chamado "tratamento precoce", o que, no Brasil, significa utilizar medicamentos que não funcionam contra a covid e que ainda podem agravar o estado de saúde dos infectados, levando parte deles à morte.

O "tratamento precoce" é uma falácia perigosa e criminosa endossada pelo CFM (Conselho Federal de Medicina), entidade cúmplice de Bolsonaro. Uma coisa é usar o mais cedo possível remédios que possam amenizar sintomas. Outra é vender a ilusão de que existe um tratamento capaz de curar a covid-19, porque isso cria uma falsa ilusão de segurança e estimula as pessoas a correr mais riscos.

Apesar de você...

Como um dos 16 milhões de "curados" e recém-vacinado com a primeira dose da AstraZeneca, posso dizer que a covid-19 não é uma "gripezinha". Herdei um zumbido intenso e diário nos ouvidos. Mas poderia ter engrossado a contagem de mortos. Durante três dias, pensei que seguiria o destino de meio milhão de brasileiros. Como diria o Chico, apesar do genocida, sobrevivi.

Presto aqui minha solidariedade a todos aqueles que perderam entes queridos na pandemia. Envio a todos os meus melhores pensamentos. A tragédia desnecessária que se abate sobre o Brasil nos dá uma certeza: tirar Bolsonaro do poder é uma questão de vida ou morte. É a missão civilizatória da nossa geração.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL