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Kennedy Alencar

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Esperneio e ataque à imprensa revelam que Bolsonaro sente peso de protestos

Manifestação em Brasíllia na manhã deste sábado (19) pede a saída do presidente Jair Bolsonaro, critica a condução do governo no enfrentamento da pandemia, ao que se soma uma pauta diversificada, com demandas sociais e econômicas - Pedro Ladeira/Folhapress
Manifestação em Brasíllia na manhã deste sábado (19) pede a saída do presidente Jair Bolsonaro, critica a condução do governo no enfrentamento da pandemia, ao que se soma uma pauta diversificada, com demandas sociais e econômicas Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

21/06/2021 14h32

O presidente Jair Bolsonaro sentiu o golpe. Em viagem hoje a São Paulo, para uma cerimônia de graduação de sargentos da Aeronáutica, ele passou recibo sobre a cobertura que a imprensa deu às manifestações do último sábado, 19 de junho.

Ao contrário dos protestos de 29 de maio, quando boa parte da imprensa ignorou os manifestantes contrários ao presidente, a cobertura foi diferente no fim de semana. As TVs CNN Brasil e Globo, por exemplo, decidiram não brigar com a notícia dessa vez.

Em entrevista na qual manteve a tradição misógina de ofender a uma jornalista, Bolsonaro se queixou: "CNN, vocês elogiaram a passeata agora de domingo [sábado]? Jogaram fogos de artifício e vocês elogiaram ainda".

Depois, ao se dizer um "alvo de canalhas do Brasil", ele se incomodou com o burburinho da própria comitiva. "Dá para calar a boca aí atrás, por favor?", cobrou, em tom impaciente.

Mas o presidente, que dá mau exemplo à população o tempo todo, perdeu o rebolado quando uma repórter lembrou que ele havia chegado sem máscara ao evento em Guaratinguetá, interior paulista. "Eu chego como quiser, onde eu quiser, certo? Eu cuido da minha vida. Parem de tocar no assunto. Você quer botar... me bota no jornal agora. Estou sem máscara em Guaratinguetá. Tá feliz agora? Cê feliz agora? Essa Globo é uma merda de imprensa", disse, mandando a repórter calar a boca e dizendo que a emissora faz um "jornalismo canalha".

O destempero de Bolsonaro revela um presidente que está vendo a mudança da atmosfera política no país. Autoritário, ele acha que pode mandar a imprensa calar a boca e impedir perguntas sobre uso da máscara. Não pode fazer uma coisa nem outra.

O esperneio de hoje, com a tradicional misoginia, é o retrato de um presidente pequeno, despreparado, ignorante e incapaz de se sensibilizar com a morte de meio milhão de brasileiros por covid-19. Bolsonaro é o principal responsável pelo agravamento da pandemia no país. As ruas gritaram isso em alto e bom som neste fim de semana.

As manifestações de 19 de junho foram maiores do que as de 29 de maio. A tendência é que o movimento cresça. Bolsonaro sabe que o vento mudou de direção.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL