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Kennedy Alencar

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

CPI consegue estimativa de quanto sangue Bolsonaro tem nas próprias mãos

24.jun.2021 - Pedro Hallal na CPI da Covid - Edilson Rodrigues/Agência Senado
24.jun.2021 - Pedro Hallal na CPI da Covid Imagem: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

24/06/2021 12h00

Os depoimentos de hoje na CPI da Pandemia permitiram estimar quanto sangue o presidente Bolsonaro tem nas próprias mãos pela condução negligentemente homicida de combate à covid-19.

Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil e dirigente do Movimento Alerta, estimou que poderiam ter sido salvas 120 mil vidas no primeiro ano da pandemia caso o governo federal tivesse adotado "política efetiva de controle".

Por "política efetiva de controle", leia-se estimular o uso das máscaras, evitar aglomerações e divulgar campanhas de informação baseadas na ciência. Mas Bolsonaro fez exatamente o contrário. Divulgou tratamento ineficaz e sabotou todas essas medidas de mitigação.

O epidemiologista Pedro Hallal, professor e pesquisador da Universidade Federal de Pelotas (RS), disse que o atraso na aquisição das vacinas da Pfizer e CoronaVac pelo governo federal resultou em 95.500 mortes que poderiam ter sido evitadas se os imunizantes tivessem sido comprados quando foram ofertados ao Ministério da Saúde.

Hallal citou estudo da USP (Universidade de São Paulo) que estima em 145 mil vidas que teriam sido salvas se o processo de aquisição de imunizantes e o ritmo de vacinação tivessem ocorrido com normalidade.

Ora, Bolsonaro desprezou a compra de vacinas da Pfizer e barrou por pelo menos quatro meses a aquisição de imunizantes do Instituto Butantan (CoronaVac). O presidente continua a lançar dúvidas sobre a eficácia da vacina.

Os dados apresentados por Werneck e Hallal permitem à CPI chegar a números de mortes que podem ser debitadas na conta do presidente da República e da estratégia negligentemente homicida de apostar na imunidade de rebanho.

Bolsonaro deixou o vírus correr solto pelo país, difundiu tratamento inexistente, o que levou mais pessoas a correr risco, e sabotou o trabalho de governadores e prefeitos que agiram com responsabilidade. Só abraçou a compra de vacinas a contragosto e com demora.

Hallal mostrou dados que apontam que mais gente morreu nas cidades nas quais Bolsonaro obteve maior votação na eleição de 2018. Conclusão: o bolsonarismo mata.

Com 2,7% da população mundial, o Brasil tem 13% das mortes globais por covid-19. Ter o genocida no poder durante a pandemia matou mais brasileiros. Bolsonaro mata.

Por volta do meio-dia, os depoentes haviam feito suas falas iniciais e ouviam perguntas o relator Renan Calheiros (MDB-AL). Hoje é um dia importante para a CPI conseguir dados científicos a fim de responsabilizar Bolsonaro pela sua oferta de paz dos cemitérios aos brasileiros.

O Brasil ultrapassou a marca de 500 mil mortos por covid-19 no último fim de semana. Segundo Hallal, "quatro de cada cinco mortes estão em excesso considerando o tamanho da nossa população". Ele disse que bastaria o Brasil ter ficado com um desempenho semelhante à média mundial para poupar cerca de 400 mil vidas. Mas o país tem um presidente que pode ser considerado o pior do planeta na gestão da pandemia.

Hallal disse que Bolsonaro foi a principal autoridade a propagar medidas de sabotagem ao combate à pandemia. De acordo com ele, do ponto de vista científico, "infelizmente, a postura do presidente da República como líder maior da nação é a pior de todas as posturas que nós observamos".

"Um pedaço dessas mortes é responsabilidade direta do presidente da República. (...) As ações do presidente da República são indefensáveis", resumiu Pedro Hallal, quando os depoimentos foram suspensos às 13h10 para um intervalo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL