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Kennedy Alencar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

MBL não tem credencial democrática para liderar ato plural contra Bolsonaro

30.jun.2019 - Faixa do MBL faz crítica ao STF (Supremo Tribunal Federal) - Claudia Martini/Futura Press/Folhapress
30.jun.2019 - Faixa do MBL faz crítica ao STF (Supremo Tribunal Federal) Imagem: Claudia Martini/Futura Press/Folhapress
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

09/09/2021 11h47

Bomba nas redes sociais um debate sobre aderir ao ato de 12 de setembro convocado pelo MBL (Movimento Brasil Livre). O grupo divulgou ontem uma nova chamada, modificando o mote anterior.

Antes das manifestações golpistas de 7 de Setembro, o MBL chamava às ruas aqueles que não querem "Nem Bolsonaro Nem Lula" em 2022. Também frisava que se tratava de uma manifestação diferente das realizadas por partidos e movimentos de esquerda.

Na nova convocação, o MBL tenta pegar carona na ideia de reedição do movimento das "Diretas Já", "nas quais os mais variados segmentos sociais, deixando de lado suas divergências ideológicas, se uniram em prol de uma construção política democrática". "Esse é o espírito do dia 12/09", promete o texto do MBL.

Em seguida, o grupo faz uma exigência para adesão: "Convocamos todos os partidos, lideranças civis e agremiações, desde que respeitem a necessidade de deixarem suas pautas particulares e suas preferências eleitorais fora do ato para nos unirmos pelo impeachment de um presidente golpista e autoritário que ameaça os próprios fundamentos da democracia nacional".

Detalhe: há ainda um aviso de que a cor oficial da manifestação será a branca.

Ora, quem foi aos comícios das "Diretas Já" viu bandeiras, palavras de ordem e roupas de todas as cores e preferências eleitorais. Havia apoiadores de Lula, Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, Mario Covas e Roberto Freire, entre outros possíveis candidatos numa eleição direta.

São autoritárias as "regras" que o MBL criou para pular do "Nem Bolsonaro nem Lula" para uma convocação suprapartidária. Uma frente ampla pelo impeachment de Bolsonaro e a defesa da democracia não pode impedir que eleitores de Lula, Ciro, Doria, Eduardo Leite, Mandetta e Amoêdo compareçam com suas roupas, bandeiras e palavras de ordem preferidas.

O MBL aproveita a oportunidade de ter marcado uma manifestação logo depois de 7 de Setembro para se reposicionar no jogo de poder. A democracia permite isso. Tudo certo. Mas é ingênuo não enxergar uma jogada que mescla oportunismo político e falso moralismo.

As exigências do novo texto de convocação não são nem o principal. O que importa é que a convocação suprapartidária do MBL é verdadeira como uma nota de três reais. Em primeiro lugar, o movimento nunca fez parte da direita democrática. Demonizou a política, invadiu museu e hospital, atacou adversários com fake news e apoiou a ascensão do autoritarismo ao poder em 2018. Chamou de "vergonha" o STF, hoje o principal alvo de Bolsonaro. O MBL defende bandeiras retrógradas em relação a minorias, meio ambiente, armas e economia. Tem identidade ideológica com o bolsonarismo.

Trata-se de um movimento autoritário que sempre recorreu a métodos fascistas em suas manifestações e campanhas eleitorais. A ruptura com o atual governo aconteceu porque o presidente Jair Bolsonaro não deu ao MBL o protagonismo que o movimento desejava dentro de um projeto regressivo. Bolsonaro descartou o MBL depois de tirar proveito dele. Este é o fato.

Desenhando: o MBL é o bolsonarismo sem Bolsonaro. Para salvar a democracia, que está sob real ameaça, não basta derrotar o genocida, mas também as ideias que ele representa.

"Deixem de revanchismo. Se formos fazer julgamento do passado, não vamos ter gente suficiente para derrubar Bolsonaro via impeachment ou no voto?", questionam políticos e jornalistas que defendem a adesão ao ato de 12 de setembro.

O MBL não tem as credenciais democráticas para liderar uma frente ampla e suprapartidária para tirar Bolsonaro do poder. Que faça seu ato de bolsonaristas arrependidos. Como diria José Simão, "vai indo que eu não vou".

Há diferença entre ter memória, aprendendo com a História, e ser revanchista e sectário. O MBL, que tem um projeto de poder obscurantista, nunca pertenceu à direita democrática. Não possui a legitimidade necessária para se sentar na janelinha dos que defendem a democracia brasileira.

É fundamental que os democratas, da esquerda à direita, disputem a política, as redes sociais e as ruas com Bolsonaro e seus fascistas. Mas fascistas recém-convertidos à democracia merecem e devem ser vistos com desconfiança.

Após 7 de Setembro, partidos políticos e entidades da sociedade civil deram início a conversas para convocar um grande ato suprapartidário. É boa a ideia de unir Lula, FHC, Ciro, Doria, Rodrigo Maia, Gilberto Kassab e outros políticos num palanque em defesa da democracia. OAB, centrais sindicais, a Igreja Católica e outras entidades da sociedade civil também devem participar da articulação desse palanque amplo e plural.

Nesse palanque, o MBL pode até subir, mas pegando carona, como pegaram nas "Diretas Já" os dissidentes da ditadura militar. O protagonismo em defesa da democracia tem de ser dos democratas, com o perdão da obviedade.

Tenham dó

É hipócrita o empenho de certo jornalismo em cobrar da esquerda uma adesão ao ato do MBL. Não se viu tanta gritaria para que a direita apoiasse manifestações da esquerda.

Democratas de pandemia descobriram recentemente que Paulo Guedes é um engodo. Nesta semana, chegaram à original constatação de que o Brasil não tem governo. Quem sabe um dia admitam que normalizaram o genocida e ajudaram Moro e cia. a demonizar a política ao corromper o processo penal.

Quando fizerem isso, terão adquirido autoridade ética para um "rebranding" sem recorrer a tanto óleo de peroba.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL