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Kennedy Alencar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Imprensa normaliza Moro e Dallagnol como fez com Bolsonaro em 2018

Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

05/11/2021 11h28Atualizada em 06/11/2021 15h30

A imprensa normaliza Sergio Moro e Deltan Dallagnol do mesmo jeito que fez com Jair Bolsonaro em 2018. Todas as evidências e provas da ameaça à democracia, do falso moralismo, da intolerância à crítica e do autoritarismo político saltam aos olhos, mas a dupla é vendida por certo jornalismo profissional como uma versão moderada do conservadorismo brasileiro.

Trata-se de uma versão falsa.

Moro e Dallagnol representam a vertente mais perigosa para a democracia do bolsonarismo sem Bolsonaro. Como viu Rosangela Moro, o "conge" e o genocida "são uma coisa só". Dallagnol é apenas um minúsculo apêndice da dupla.

Moro decidiu se filiar ao Podemos e já colocou nas redes sociais sua pré-campanha presidencial. Na tradicional mescla dos atentados em série à inculta e bela e da profundidade intelectual de um pires, ele repete os chavões caros à Faria Lima sobre economia e o seu moralismo hipócrita sobre corrupção.

Dallagnol, que anunciou a saída do Ministério Público, deve seguir o mesmo caminho do ex-juiz com quem combinava a estratégia da acusação para condenar o ex-presidente Lula e tirá-lo do jogo eleitoral de 2018, pavimentando o caminho para a ascensão de Bolsonaro ao poder.

O ex-coordenador da força-tarefa da Lava Jato é aquele que deu um jeitinho para entrar na carreira e sai agora dela de fininho, tentando evitar ser enquadrado pela Lei da Ficha Limpa.

Como lembrou o advogado e cientista político Fabio de Sá e Silva, professor de estudos brasileiros da Universidade de Oklahoma, são inelegíveis pelo prazo de oito anos "magistrados e membros do Ministério Público (...) que tenham pedido exoneração ou aposentadoria voluntária na pendência de processo administrativo disciplinar". O ex-procurador tem processos ainda abertos.

Quando políticos renunciavam a seus cargos eletivos a fim de manter direitos eleitorais, esses moralistas sem moral diziam que era uma forma de buscar impunidade. Ao se beneficiar de pedidos de vista em série para evitar a análise de seus casos no Conselho Nacional do Ministério Público, Dallagnol apostou na prescrição, que sempre considerou uma forma de impunidade.

Moro e Dallagnol corromperam a lei processual penal na Lava Jato. Uma análise equilibrada das mensagens da Operação Spoofing deixa isso claro, mas jornalistas afirmam que houve "falhas" e não crimes da Lava Jato. Ora, é uma normalização das condutas criminosas de juiz e procurador. Não foi o normal o que fizeram Moro e Dallagnol.

Quando se trata dos processos do ex-presidente Lula, fala-se que o petista se beneficiou de vícios formais. A mais alta corte do país decidiu que não houve juiz no processo do ex-presidente, mas um Torquemada.

Quando a Justiça considera que um juiz agiu com suspeição, como Moro no caso de Lula, isso não é mera formalidade. É a ausência do devido processo legal, algo que contraria um princípio basilar do estado democrático de direito, o de que todo cidadão tem o direito de ser bem acusado e julgado por um juiz imparcial. Mas, para os democratas de pandemia, isso é somente um detalhe formal.

Moro foi o juiz que viabilizou, numa decisão a jato no caso do apartamento do Guarujá, a saída de Lula da disputa eleitoral em 2018. Divulgou uma delação frágil do ex-ministro petista Antonio Palocci Filho para ajudar Bolsonaro na reta final da última eleição presidencial, enfraquecendo as chances de Fernando Haddad, que substituiu Lula como candidato do PT.

As mensagens da Operação Spoofing mostraram a preocupação de Dallagnol com a fragilidade das suspeitas contra Lula e a obsessão em encontrar uma forma de acusar e condenar o ex-presidente. As conversas exibiram a clara preferência de Dallagnol e seus colegas de Curitiba pela candidatura de Bolsonaro.

Moro foi diretamente responsável por enfraquecer a última tentativa da então presidente Dilma Rousseff para evitar o impeachment. Em 2016, divulgou ilegalmente uma conversa de Dilma com Lula, criando o ambiente político que levou o ministro do STF Gilmar Mendes, então lavajatista e hoje um crítico duro da operação, a impedir a posse de Lula na Casa Civil.

Moro e Dallagnol foram os principais responsáveis pela destruição dos setores de construção e óleo e gás do Brasil, atuando sem a menor responsabilidade financeira e visão estratégia sobre a economia de um país que tinha peso geopolítico pré-Lava Jato. Com apoio da imprensa, pisaram fundo no acelerador de um udenismo tosco para capturar o apoio da opinião pública, como escreveu Moro num artigo sobre a Operação Mãos Limpas. O jornalismo serviu de correia de transmissão aos objetivos políticos da Lava Jato.

Quem deseja entender como o herói da República de Curitiba foi capaz de cometer tantos crimes ao combater o crime pode assistir ao documentário "Sergio Moro: A construção de um juiz acima da lei", de autoria de Luis Nassif, Marcelo Auler, Cintia Alves e Nacho Lemus. Tudo o que aconteceu na Lava Jato é uma repetição em escala maior do caso Banestado, até mesmo a manipulação de competências para atrair réus e processos para a sua jurisdição.

Quando cavou a vaga de ministro da Justiça de Bolsonaro, Moro fechou os olhos para as rachadinhas da familícia. Apoiou a ampliação do porte e posse de armas desejada por Bolsonaro. Usou a Lei de Segurança Nacional contra desafetos. Propôs uma "lei anticrime" ampliando excludentes de ilicitude a ponto de transformar as polícias em esquadrões da morte oficiais. Teve dificuldade para negociar com o Congresso, um exemplo de sua inabilidade política. É uma figura com ideias de extrema-direita.

Depois de trabalhar para uma consultoria americana que tinha como clientes empreiteiras que ajudou a quebrar com suas decisões, Moro voltou ao Brasil para se filiar ao Podemos e participar de um encontro do MBL, uma organização de fascistas.

Em 2018, democratas de pandemia fizeram falsa equivalência entre o PT e Bolsonaro no segundo turno. Disseram que a democracia estava no centro do debate, como se pudesse haver comparação entre Haddad e o fã do Ustra. Escreveram artigos apontando a garantia que dois superministros (Moro e Paulo Guedes) dariam contra a falsidade das propostas de combate à corrupção e o plano econômico do candidato mais despreparado da história das eleições brasileiras.

Moro e Dallagnol vão fazer oficialmente o que já faziam: política partidária. Mal tiraram a máscara, certo jornalismo profissional se apressa em normalizá-los. Como boa parte é cúmplice da dupla, autocrítica nos olhos dos outros é refresco.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL