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Dá para ter lado no conflito EUA e Irã? Sim, o do povo oprimido por ambos

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

07/01/2020 04h00

Tanto os Estados Unidos quanto o Irã deveriam deixar o Iraque.

Ambos os governos defendem, hipocritamente, a ocupação do país com suas forças militares sob a justificativa do risco representado pelo grupo terrorista Estado Islâmico/ISIS e para ajudar na reconstrução do país.

Mas as declarações de respeito dos EUA e do Irã ao país, oprimido pela ditadura Saddam Hussein e destruído por guerras em nome do petróleo e de armas de destruição em massa inexistentes, além de conflitos promovidos por milícias que se fortaleceram com ações dos próprios países, não passariam por um polígrafo.

Se quisessem ajudar Bagdá a se reerguer, criariam um fundo para a reconstrução do país e deixariam a tarefa para os próprios iraquianos, auxiliados por forças sob o comando das Nações Unidas para impedir que o ISIS se beneficie do vácuo de poder. Preferiram afogar um movimento nascente que poderia ajudar a reformar um Estado corrupto, cleptocrata e violento.

Como em qualquer outra região, o Oriente Médio sempre foi palco de manifestações populares progressistas e conservadoras. Mas elas acabam sequestradas por questões étnicas, religiosas, geopolíticas. Foi assim na Primavera Árabe, que começou em 2010. E repetiu-se agora.

"Estava acontecendo um movimento no Iraque que lembra a Primavera Árabe. Há três meses, há revolta popular e genuína no país, de setores representativos importantes. Contra quem? O governo que, até agora, era apoiado pelos EUA e o Irã. Nessas revoltas, havia sunitas e xiitas juntas, mostrando que não havia sectarismo. Essas manifestações foram reprimidas violentamente pelo governo, com o apoio do Irã", afirmou à coluna Reginaldo Nasser, professor livre-docente do curso de Relações Internacionais da PUC-SP, um dos principais especialistas brasileiros em conflitos no Oriente Médio do Brasil. "Ao mesmo tempo, a presença dos EUA foi um fracasso para a população iraquiana."

"Entendo que tanto o Irã quanto os EUA estavam com receio de se ver fora de um novo jogo político, pois a grande manifestação popular não queria nem um, nem outro", explica Nasser.

A insatisfação era em relação ao modelo de Estado e de sociedade que ambos queriam ver implantados. Mas com o assassinato do general, tudo muda e o país pode se tornar, novamente, palco de conflitos. Quando um lado e outro bombardeiam alvos do inimigo no país, inevitavelmente morrem civis iraquianos. Ou seja, independentemente de quem ganha, o Iraque perde.

E o que significa perder?

"Noal era uma refugiada curda do Leste da Síria que foi ao Iraque. Um líder militar de alta patente a sequestrou, escravizou e estuprou por quase dois anos. Noal se tornou uma escrava sexual de um warlord [senhor da guerra]. Mas fugiu com a ajuda da nossa organização. Nós a escondemos por um tempo num local seguro. Depois, conseguimos documentos que, hoje, garantem a ela uma vida tranquila na Europa. Esteve na TV, há poucos dias, e agradeceu a todos nós - ainda que não pudesse dizer nossos nomes por questões de segurança."

O depoimento foi dado a mim por Hoshyar Malo, nascido no Curdistão iraquiano, que dirige a Kurdistan Human Rights Watch, uma das mais antigas organizações de defesa dos direitos humanos dessa região autônoma, em Erbil, norte do país.

Uma de suas tarefas é ajudar a libertar e atender vítimas do trabalho escravo, como escravas sexuais, e prevenir que crianças sejam forçadas a se tornarem soldados. "Muitas das milícias e partidos políticos usam tudo o que podem na luta contra outras milícias, inclusive crianças-soldado", explica.

Trabalho escravo e tráfico de seres humanos são consequências comuns de conflitos armados. Culpa do Estado Islâmico, mas também das guerras empreendidas pelos Estados Unidos na região (vale lembrar que o ISIS ganhou forma dentro de um campo norte-americano de prisioneiros no Sul do Iraque) e dos conflitos promovidos pelo Irã, diretamente ou por procuração. Respeito aos direitos humanos é algo que não tira o sono de potências globais ou regionais no Oriente Médio.

Dá para ter um lado sim, o do povo sofrido do Iraque. Mas, infelizmente, esse serve apenas como desculpa. Não importa e nunca importou.

Leonardo Sakamoto