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Casos extremos, como a chuva em SP, são nova realidade, dizem especialistas

Carro submerso sob ponte da Casa Verde, na marginal Tietê, após forte chuva atingir São Paulo - 10.fev.2020 - Marcelo Gonçalves/Sigmapress/Estadão Conteúdo
Carro submerso sob ponte da Casa Verde, na marginal Tietê, após forte chuva atingir São Paulo Imagem: 10.fev.2020 - Marcelo Gonçalves/Sigmapress/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

10/02/2020 13h54

Episódios extremos, como a chuva forte que parou São Paulo, nesta segunda (10), serão cada vez mais frequentes porque a temperatura do planeta subiu e continuará subindo devido à ação humana. Já passou do momento de implementarmos amplas medidas de adaptação às mudanças climáticas, mas infelizmente, isso não deve acontecer no curto prazo porque os administradores públicos não consideram isso prioridade.

Essa é a avaliação de três especialistas no tema que trabalham nas esferas de governo federal, estadual e municipal, ouvidos pela coluna em condição de anonimato. Segundo eles, há Estados e cidades que desenvolveram seus planos e políticas de adaptação, contudo ações efetivas pouco saíram do papel. E, portanto, vamos conviver com a dor de perdas humanas e prejuízos econômicos até que líderes políticos e econômicos se deem conta disso.

Isso passaria pelo aumento da permeabilidade do solo em centros urbanos e aumentar projetos de habitação popular para pessoas que ainda não estão em áreas de risco, mas estarão com o aumento das chuvas. Também ampliar a proteção a mananciais para garantir a sobrevivência em tempos secos, junto com a construção de grandes reservatórios sobressalentes, entre outras ações. A despeito do trabalho de alguns setores do poder público, não há nada de concreto.

"A verdade é que, considerando a situação atual, teremos que nos acostumar com os impactos de chuvas como essa. Ou, com o oposto, com secas prolongadas que podem deixar cidades sem água. Essa deve ser a nossa nova realidade", afirma um dos ouvidos. "Cientistas evitam falar isso para não soar catastrófico, mas as mudanças são irreversíveis e episódios extremos, como essas chuvas, estão apenas começando."

"Não é possível dizer que uma grande tempestade especificamente é culpa do aquecimento global. Mas um episódio de chuvas fora da curva, como o que atingiu Minas Gerais, que aconteceria uma vez a cada mil ou 10 mil anos, passa a se repetir com frequência de dez ou cinco anos", explica outro. "O Estado não está preparado para isso."

Esses especialistas afirmam que não falta informação para a execução de planos e políticas. Mas há governos que só se importam com chuvas quando chove ou não querem mudar o modelo de desenvolvimento (porque isso significaria ir contra interesses que, não raro, os elegeram). Isso sem contar governos que dão declarações contrárias à existência de mudanças climáticas por ação humana, o que só nos afasta de soluções. Um exemplo é o conhecido comportamento negacionista do chanceler Ernesto Araújo.

Há décadas, sociedade civil e cientistas alertaram sobre a necessidade de ações mitigatórias, o que significa, reduzir emissão de gases causadores de efeito estufa. O Brasil não polui no mesmo patamar da China e dos Estados Unidos, mas contribui para o colapso do clima com queimadas e desmatamento e emissão de gases de veículos. No ano passado, primeiro da gestão Jair Bolsonaro, houve um salto na destruição da Amazônia, revertendo a curva de redução. E mais carbono foi lançado na atmosfera.

A mitigação é responsabilidade global, caso contrário não é possível controlar o avanço da temperatura no planeta. E inclui, além da redução da emissão de gases de efeito estufa, o investimento em tecnologias mais eficazes de captura de carbono. Agora, contudo, preocupa a não-efetivação de ações para sobrevivência no curto e médio prazo. Cidades na Europa já constroem diques acima do necessário para absorver o impacto futuro da subida do mar, por aqui nem alertamos com antecedência todas as comunidades em risco.

"Ninguém quer se preparar para o 'fim do mundo', mas não é essa a mensagem. Os políticos que estão aí há 30, 40 anos não conseguem entender que o planeta em que nasceram não é mais o mesmo. Essa deveria ser a grande emergência nacional", lembra uma das fontes, frisando que os mais pobres são os que mais vão sofrer.

"Talvez uma nova atitude só venha com uma mudança de geração na política. Mas isso pode vir tarde demais."

O clima mudou

Segundo a Organização Metereológica Mundial, os 20 anos mais quentes, desde 1880, foram registrados nos últimos 22 anos. Tendo em vista o atual comportamento de governos, empresas e consumidores, alterações significativas em nossa economia baseada em carbono não devem ocorrer a tempo de nos encaixarmos nos prognósticos menos piores.

Para limitar o aumento da temperatura global abaixo dos 2 graus Celsius até o final do século, conforme o que foi perseguido pelo Acordo de Paris sobre o clima, seria necessário zerar emissões de dióxido de carbono, com relação ao ano de 2010, nas próximas duas ou três décadas. Contudo, baseado nas promessas de redução de gases de efeito estufa dos países que assinaram o documento, o aumento de temperatura já seria de 3 graus em 2100. E tomadas como base as políticas atuais desses países, o aumento seria de 3,5 graus.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), das Nações Unidas, refez os cálculos e diz que 2 graus não são uma margem segura, sendo que a meta deveria ser de 1,5 grau Celsius em relação aos níveis pré-industriais. Detalhe, já estamos em 1 grau de aumento. Não é improvável que a humanidade ultrapasse os 4 ou 5 graus de crescimento até o final deste século.

De acordo com o IPCC, com um limite de aumento de 2 graus Celsius, 37% da população global estará exposta a ondas de calor severas pelo menos uma vez a cada cinco anos; em um em cada dez anos, não haverá gelo no verão do Ártico; o nível do mar vai subir 0,46 metro até 2100; a pesca reduzirá a produção em 3 milhões de toneladas e a agricultura produzirá 7% a menos de trigo nos trópico. Fora chuvas e tempestades acima do normal.

Leonardo Sakamoto