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Leonardo Sakamoto


Socorristas do Samu pedem bom senso: "há casos graves além do coronavírus"

16.fev.2020 - Médicos levam primeira parte de pacientes infectados com o novo coronavírus para uma área de isolamento no hospital Huoshenshan, em Wuhan - Xinhua/Xiao Yijiu
16.fev.2020 - Médicos levam primeira parte de pacientes infectados com o novo coronavírus para uma área de isolamento no hospital Huoshenshan, em Wuhan Imagem: Xinhua/Xiao Yijiu
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

17/03/2020 18h06

Resumo da notícia

  • Médicos socorristas pedem à população para acionar serviço de emergência apenas para casos urgentes em que paciente não possa se deslocar ao hospital.
  • Casos com sintomas leves e moderados de coronavírus devem ser tratados em casa e avaliados, de preferência, em postos e unidades básicas de saúde.
  • Socorristas referem-se à crise gerada pela chegada da pandemia como uma "guerra" e contam saber que vão contrair a doença.
  • Faltam não apenas leitos e respiradores, mas também médicos, enfermeiros e técnicos de saúde especializados em atendimento de emergência.
  • Profissionais que atuam em emergências afirmaram que desrespeito a regras para evitar transmissão por parte de Bolsonaro pôs vida deles em risco.

"Acidentes de trânsitos, partos, afogamentos, quedas de laje, infartos não param de acontecer para esperar o coronavírus passar."

O desabafo é de uma socorrista que atende no Estado de São Paulo, epicentro da contaminação no país. A coluna conversou com seis médicos que atuam nessa área, na capital e no interior. Eles pediram à população bom senso na hora de chamar o serviço de emergência por sintomas do Covid-19.

Para eles, é importante que ambulâncias sejam enviadas apenas em casos graves que apresentem riscos para a vida do paciente. Quando houver possibilidade, a recomendação é ir por conta própria a um posto de saúde ou hospital.

"O serviço de emergência não pode se deslocar para atender a uma suspeita de Covid-19, tem que ir para resolver um quadro sério de insuficiência respiratória - que é um dos sintomas desta e de outras doenças", explica outro socorrista.

A questão não é apenas de número limitado de veículos e de equipes especializadas, mas também de evitar que a pandemia se espalhe com velocidade ainda maior. "Por mais que tomemos todas as medidas de limpeza da ambulância a cada atendimento e sigamos os protocolos, aquilo é um ambiente hospitalar e pode gerar contaminação", explica outro médico socorrista. Ressalta que, às vezes, há uma ambulância para uma cidade inteira.

Os médicos que atendem à região da Grande São Paulo já sentiram um aumento no número de chamados por sintomas de resfriado ou gripe forte, o que pode estar ligado à pandemia. Esse aumento ocorreria, naturalmente, mais próximo ao inverno com a queda das temperaturas.

E afirmam que há ações para melhorar a triagem em curso. "Muitas vezes a população faz mau uso do Samu, exagera nos sintomas e na urgência, para ter atendimento no local. Isso toma tempo precioso de outros casos mais graves", explica um socorrista. "Achamos que todos os nossos casos são sérios, mas há pessoas que morrem por falta de atendimento."

O bombardeio de informação pela imprensa e por parte de campanhas de órgãos públicos e da sociedade civil está causando efeito no aumento da consciência das pessoas sobre o problema, contudo. "Fui atender um casal de idosos, por outro motivo - um senhor de 98 e uma senhora de 83. Pediram para não irem ao hospital por medo do risco de contaminação", explica um médico que atua em emergências na capital.

Vale lembrar, porém, que estamos em ano eleitoral. "Prefeitos e vereadores, querendo fazer média, principalmente em cidades médias, não querem criar a impressão que estão negando atendimento à população em meio à pandemia", explica um socorrista do interior de São Paulo. Ele diz que a recomendação é priorizar os casos relacionados ao coronavírus.

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Imagem: Reprodução

Contaminação de profissionais

A maioria dos socorristas ouvidos pela coluna usaram a expressão "guerra" para se referir aos próximos meses devido ao coronavírus. Sabem que o país não conseguirá conter a doença, mas dizem que é possível evitar que os casos ocorram todos de uma vez. E, aos poucos, garantir atendimento a todos. Mas também sabem que estão na linha de frente e, portanto, mais expostos.

"Profissional de saúde sempre está em risco. Já entrei em contato com tuberculose muitas vezes. Por mais que faça a paramentação, com gorro, luva, macacão, estou fechada em uma ambulância com um paciente. Temos um risco naturalmente maior", afirma uma médica. "Eu sei que vou pegar."

Para muitos deles, a questão não é contrair a doença, mas o que isso significará.

"O problema é que vamos ter que cobrir o buraco deixado por colegas que, mais cedo ou mais tarde, vão se infectar e terão que se recuperar. Ou seja, vamos perder 'soldados' e teremos que trabalhar mais", explica outro socorrista. "E quando você trabalha muito, come mal, dorme mal e não se exercita, o organismo fica mais vulnerável."

Além disso, há membros de equipes de emergência hipertensos, diabéticos, com mais de 60 anos, ou seja, dentro do grupo de risco. Os governos têm afastado servidores públicos dessas atividades, permitindo o home office. Mas como afastar médicos diante de um número já reduzido de profissionais?

"O uso correto de equipamentos de proteção individual e as técnicas corretas de atendimento podem prevenir que fiquemos doentes. Vamos ter que ser cada vez mais rigorosos para seguir protocolos", explica um deles.

"Há profissionais de saúde que acreditam que vão morrer e outros que estão tranquilos, sabem que a pandemia traz riscos, mas que é possível reduzi-los. Estamos tentando quebrar o ciclo pessimista entre os colegas."

Paciente é transportado em hospital no Irã, infectado com coronavírus  - Twitter
Paciente é transportado em hospital no Irã, infectado com coronavírus
Imagem: Twitter

Falta de recursos

Profissionais ouvidos afirmam que, desde janeiro, São Paulo tem se planejado para chegada do coronavírus. E que o Estado é privilegiado porque tem, por exemplo, o Instituto Adolfo Lutz, órgão público que realiza exames. Além disso, o Hospital das Clínicas, o maior do país, está preparando uma unidade para receber apenas pacientes com coronavírus.

Todos os ouvidos apontam, porém, que é difícil correr atrás do prejuízo de uma hora para a outra.

"O Hospital Emílio Ribas [especializado em doenças infecciosas] tem um obra que não termina nunca. Imagina quantos leitos não teríamos disponíveis se ela tivesse acabado? O Estado de São Paulo tem uma politica muito ruim de recursos humanos. Sem reajuste decente e as pessoas se aposentando e não sendo repostas", afirma um dos médicos.

"Estamos passando por um processo de desmonte do SUS [Sistema Único de Saúde]. Já era um desafio encarar as doenças de sempre, como dengue, febre amarela e o sarampo, que voltou, imagine agora."

Na avaliação de outro socorrista, o governador [João Doria] liberou recursos e há uma equipe técnica trabalhando com seriedade, mas o sistema de saúde em São Paulo já estava no limite, não conseguindo cumprir seu papel. "Se essas estruturas que estão sendo montadas de forma emergencial vão dar conta ou não, só saberemos com o passar do tempo", afirma.

O mesmo afirma outro socorrista sobre a gestão da capital paulista: "A medida do prefeito [Bruno Covas] de decretar Estado de Emergência foi correta, facilita compras e estávamos sem estoque de determinados produtos. Mas é importante que os profissionais de emergência não fiquem pelo caminho porque são mais importantes que camas e materiais."

Um exemplo é o que está acontecendo em uma cidade média do interior em que um dos socorristas ouvidos trabalha. O único hospital da cidade está dividindo a sua UTI ao meio, separando leitos especificamente para o coronavírus, isolados dos demais. Como a quantidade de leitos já era muito pequena, dividiu-se o pouco que havia.

"Vocês não entendem o tamanho do problema. Não há pessoal o suficiente. Chego com um paciente ao pronto-socorro e não há médicos o bastante. Lembrando que precisa ser profissional que sabe cuidar de emergência e não só recém-formado para fazer triagem. Enfermeiros de UTI não são os mesmos do posto de saúde. Fisioterapeutas para lidar com os respiradores e garantir que pacientes não fiquem sequelas são necessários. E técnicos especializados em UTI, em farmácia - não posso mandar medicamento errado. Vão contratar pessoal de almoxarifado especializado em crise hospitalar? Não adianta só comprar leito e respirador e descobrir que não fizeram o pedido certo do tubo número oito ou que não tem filtro para o respirador na hora da emergência", desabafa um médico socorrista.

A emenda constitucional que impôs um limite para o crescimento dos gastos públicos foi promulgada pelo Congresso, em 2016, durante o governo Michel Temer. Um dos socorristas ouvidos reclama que estados e municípios decretando emergência para poder ter liberdade de comprar insumos e facilitar a contratação emergencial se deve a esse limite.

"A emenda ajudou a sucatear cada vez mais o serviço de atendimento de emergência. Ao mesmo tempo, os planos de saúde perderam 3 milhões de pessoas por conta da crise e do desemprego. Imagine o impacto disso agora, durante a pandemia?", afirma.

Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Descaso de Bolsonaro

Os ouvidos pela reportagem demonstraram indignação frente ao comportamento do presidente Jair Bolsonaro durante a crise.

"O que adianta eu estar me esforçando se o presidente faz tudo aquilo que é o contrário ao que estamos orientando a população a fazer?", questiona uma socorrista.

No último domingo (15), durante das manifestações que pediram o fechamento do Congresso Nacional, Jair Bolsonaro abandonou o isolamento de sete dias, necessário por ter ido para fora do país durante o surto de coronavírus, e foi apertar as mãos e confraternizar com uma multidão de apoiadores. O Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde recomendam manter distanciamento social para não contrair, nem passar o vírus.

"Eu estou na rua me colocando em risco à toa?", diz outro. "Foi a maior inconsequência que esse país já viu com o presidente saindo no meio do púbico em uma manifestação."

"Se eu fosse o ministro da Saúde [Luiz Henrique Mandetta], teria entregue o cargo depois da palhaçada do presidente. Eu não teria essa nobreza que ele está tendo de fazer as coisas com o chefe jogando contra", afirma um terceiro.

"Surpreendeu positivamente a postura do ministro Mandetta na crise. Primeiro, ele não é maluco. Imagina uma pessoa como o [chanceler] Ernesto Araújo cuidando da Saúde do país, em meio à pandemia?", questiona mais um. "Ou o próprio presidente?"

A irritação unânime, independentemente do posicionamento político dos médicos ouvidos, é por que sabem que isso vai afetá-los. Para eles, a efetividade dos serviços de emergência está diretamente ligada ao sucesso do distanciamento social, ou seja, das pessoas conseguirem evitar aglomerações e isolarem-se em casa. Para os médicos, o presidente depôs não apenas contra o seu trabalho, mas também sua vida.

"Escutei de pessoas que era obrigação minha me expor ao risco por ser médico. Sim, mas não preciso morrer por isso", conclui um dos socorristas, antes de voltar para o atendimento.

Os nomes dos médicos foram suprimidos a pedido deles para que não sofram represálias.

Leonardo Sakamoto