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Ataque de Bolsonaro a Mandetta abafa atraso na renda emergencial de R$ 600

Presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto - Reprodução
Presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto Imagem: Reprodução
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

06/04/2020 23h22

Com a ameaça de demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, Bolsonaro conseguiu atrair a atenção da mídia, dos militares, do Congresso Nacional, dos ministros do STF, dos governadores, dos prefeitos, dos médicos e, principalmente, das redes sociais durante esta segunda (6).

A narrativa que fica é de que ele foi contido, mais uma vez, pelas instituições democráticas e pelo bom senso. Que foi impedido, pelo menos momentaneamente, de trocar um ministro que vem sendo diligente no combate ao coronavírus por um terraplanista biológico.

Enquanto isso, seu governo atrasou em mais um dia a explicação de como fará chegar aos que precisam a renda básica de R$ 600,00. São milhões de trabalhadores informais que perderam o sustento diante das necessárias medidas para retardar o avanço do coronavírus. E, a menos que Bolsonaro tenha um coelho na cartola, o recurso não chegará a todos através do tal aplicativo na velocidade necessária.

A cada dia que passa, mais gente passa fome, como me lembrou o padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua, em São Paulo.

Bolsonaro é cheio de som e fúria, mas não vazio de significado. Ao lado da mentira, a ira e o caos são métodos de sua gestão. Ele adota a guerra como instrumento de governo. Precisa do conflito para manter seus seguidores mobilizados contra inimigos que ele mesmo constrói. Mas também para contar com uma cortina de fumaça para a sua incompetência. E para implementar sua agenda após confundir as instituições e a sociedade.

O problema é que, diante da pandemia assassina de coronavírus, o governo precisaria passar por cima de disputas ideológicas, contando com a união da população em nome de um fim comum - o da sobrevivência.

Precisaria garantir tranquilidade para que cientistas, médicos e gestores públicos pudessem encontrar soluções e executassem políticas públicas a fim de preservar a qualidade de vida.

E precisaria de um líder sem déficit de autoestima e politicamente capaz, que colocasse realmente o Brasil acima de tudo. Inclusive de suas pretensões eleitorais em 2022.

O presidente não abandonou o combate ao isolamento social - apontado pela Organização Mundial da Saúde como o caminho a seguir para retardar o coronavírus e garantir que hospitais não entrem em colapso. Com medo da recessão que, inevitavelmente, a pandemia trará, e o significado disso para seu mandato, diz que quer garantir vidas e empregos. Mas garante-se empregos através de medidas de ajuda para pagamento de salários - política que seu governo começou tarde e avança a passos de tartaruga.

O atraso parece até proposital, a fim de provar que todos devem voltar ao trabalho, pois caso contrário, morrerão de fome.

Enquanto ele tiver 33% que aprovam a forma como enfrenta a crise e 40% que acreditam que ele mais ajuda do que atrapalha no combate ao coronavírus, de acordo com a última pesquisa Datafolha, ele seguirá fazendo o que quer.

Inclusive mobilizar a República para encobrir um não-governo.

Leonardo Sakamoto