PUBLICIDADE
Topo

Bolsonaristas socam jornalistas para celebrar Dia da Liberdade de Imprensa

O fotógrafo Dida Sampaio, do jornal O Estado de São Paulo, é agredido por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro - Ueslei Marcelino/Reuters
O fotógrafo Dida Sampaio, do jornal O Estado de São Paulo, é agredido por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

03/05/2020 16h30

Uma turba de fãs de Jair Bolsonaro chutou e esmurrou o fotógrafo Dida Sampaio e atacou o motorista Marcos Pereira, ambos do jornal O Estado de S.Paulo. Outros profissionais de imprensa foram empurrados e xingados. Enquanto isso, da rampa do Palácio do Planalto, o ocupante da Presidência da República sorria e acenava para uma multidão que pedia o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional e o fim das medidas de isolamento social contra o coronavírus. Em suma, ditadura e morte.

Alertado que jornalistas estavam sendo atacados, Bolsonaro não manifestou descontentamento. Apenas criticou a TV Globo. E, dessa forma, o Brasil festeja com fascismo o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, celebrado neste domingo (3). Nas redes sociais, o presidente disse que chegou ao seu limite e que tinha as Forças Armadas a seu lado.

Um grupo de enfermeiros já havia sido agredido, nesta sexta, por outros fãs do presidente. A razão: defendiam a manutenção de quarentenas para reduzir o ritmo de contágio da pandemia. Sim, em 2020, profissionais que estão enfrentando a Covid-19 são atacados na rua por defenderem ciência no lugar do obscurantismo.

Parte da militância bolsonarista age como milícia, não apenas nas redes sociais, mas também na vida offline. Atua para silenciar e punir aqueles que criam embaraços ao seu líder ou que questionam as ideias que ele sustenta.

Não foi por falta de alerta. Ao longo da campanha eleitoral de 2018, avisamos que essa seria uma das partes assustadoras do dia seguinte à abertura das urnas: saber que grupos e milícias de extrema-direita, que operavam ainda com algum pudor, se sentiriam fortalecidos para agir à luz do dia com a vitória de um candidato que pregava o ódio como instrumento político.

Esse ecossistema também inclui ações com ameaças às famílias das pessoas vistas como inimigas, via mensagens nas redes sociais e por aplicativos de mensagens, terror psicológico, perseguição e ataques verbais em espaços públicos, difamação através da difusão de notícias falsas e, como aconteceu hoje, agressões físicas e ameaças de morte.

Bolsonaro é o responsável por isso. Não é necessário que ele demande uma ação por parte desses grupos. Suas postagens em textos e vídeos acusando jornalistas, cientistas, médicos, organizações sociais alimentam naturalmente as milícias que agem como matilhas para defendê-lo, tornando a vida de outros um inferno. Os milicianos bolsonaristas vão além de xingar as pessoas, querem puni-las efetivamente. E, se possível, tornar cada caso um exemplo do que pode acontecer com quem fizer o mesmo.

Claro que há outros políticos, da esquerda à direita, que ostentam uma militância intolerante, que já chegou às vias de fato contra jornalistas. Também merecem o repúdio e punição.

Mas inspirados por um presidente que transpira ódio diário e é responsável sozinho por boa parte dos ataques contra jornalistas, conforme a Associação aponta a Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) já mostrou, hordas bolsonaristas ultrapassaram todos os limites.

Estamos falando de algo bem mais complexo, que vai além de exércitos de perfis falsos pagos e fãs que fariam quase de tudo por seu herói. É promoção de violência política para moldar a opinião pública à sua imagem e semelhança.

Os Camisas Negras, do fascismo italiano, atacavam jornais, movimentos políticos, sindicatos, grevistas, intelectuais e quem ousasse ir contra os ideais que seus líderes defendiam. Pregavam, através do medo e da porrada, o nacionalismo e repudiavam o comunismo, o liberalismo e o pacifismo. Seria leviano comparar dois momentos históricos diferentes em poucas linhas. Até porque, a Itália da primeira metade do século 20 não contava com nossa tecnologia de comunicação, que garante que ações de justiciamento sejam promovidas de forma imediata e massiva, em sucessivas vezes, com baixo custo.

Aponta-se para o "inimigo", inventa-se "crimes", e os seguidores fazem o trabalho sujo.

Esse tipo de ação - que nasce na rede e se derrama para fora - não pode ser encarado como algo banal. É grave e está diretamente relacionada à lenta corrosão de nossas instituições. Em 2018, escrevi aqui que o naco extremista da militância bolsonarista faria seus julgamentos sumários sem medo de ser feliz. E é o que está acontecendo: estão matando a liberdade de expressão sob a justificativa da liberdade de expressão.

Preocupo-me menos com um "autogolpe" e com casas sendo pichadas com frases preconceituosas, pessoas sofrendo assédio pesado em seus locais de trabalho, profissionais apanhando na rua enquanto trabalham ou manifestantes "do lado errado" correndo o risco de morrer.

Considerando que as milícias não contam com um comando geral de ação, mas são pulverizadas, isso pode acontecer em qualquer lugar do país. Qualquer um pode fazer parte disso, defendendo "o líder supremo", como ele se denomina. Incluindo seus primos, seus tios, um colega de trabalho, você.

Jair Bolsonaro não deplora os ataques de seus seguidores no momento em que eles acontecem porque estão cumprindo seu papel nesse teatro absurdo. Amanhã, ele pode vir a público e repudiar, mas a intimidação terá subido mais um degrau e a democracia descido mais um.

Infelizmente, parte da sociedade não entende ataques a jornalistas e sua fragilização como um soco na liberdade de expressão, um pilar da democracia. Vê isso como uma manifestação do descontentamento ao estado das coisas. Incendiada por conteúdos superficiais distribuídos pelo WhatsApp e não acostumada ao debate público de ideias, à aceitação da diferença de opinião e à empatia pelo outro, há quem diga "bem-feito". E chame de "lixo" o trabalho da imprensa, mesmo que a maior parte do conteúdo que consome venha dela.

É necessário parar de contemporizar com o comportamento violento do presidente da República achando que as "instituições estão funcionando normalmente" só porque o Supremo Tribunal Federal ou o Congresso Nacional travaram algo aqui ou ali. Bolsonaro pode fazer muito com suas palavras, como podemos ver pela quantidade de pessoas que desistiram da quarentena após sua campanha a favor do vírus. Notas de repúdio não são mais aceitáveis como resposta. Beicinho de reprovação, muito menos.

Leonardo Sakamoto