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Falas de Damares e Salles são piores que a de Weintraub, dizem procuradores

MARCOS CORRÊA / PR
Imagem: MARCOS CORRÊA / PR
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

24/05/2020 12h43

"Pode chegar o momento da investigação em que Augusto Aras diga a Jair Bolsonaro que terá que entregar alguma coisa. Weintraub pode ser, então, sacrificado em nome da tranquilidade do presidente." A avaliação é de um dos ouvidos pela coluna na Procuradoria-Geral da República após a divulgação do vídeo da polêmica reunião ministerial de 22 de abril.

Contudo, procuradores veem as falas dos ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, como mais graves do ponto de vista legal e institucional do que a intervenção do ministro da Educação. O azar de Abraham Weintraub seria ter atingido o Supremo Tribunal Federal, ainda mais neste momento delicado.

A gravação, divulgada nesta sexta (22), em meio à investigação que analisa uma possível interferência indevida do presidente da República na Polícia Federal para a proteção de seus filhos e amigos, também revelou ameaças ao ordenamento democrático por assessores de Bolsonaro.

"Eu por mim colocava esses vagabundos todos na cadeia, começando pelo STF", afirmou o ministro da Educação. "Governadores e prefeitos responderão a processos e nós vamos pedir inclusive a prisão de governadores e prefeitos", disse a ministra dos Direitos Humanos. "Nós temos a possibilidade, nesse momento em que a atenção da imprensa tá voltada quase que exclusivamente pro covid (...), de ir passando a boiada e mudando o regramento [ambiental e de preservação do patrimônio histórico]", declarou o ministro do Meio Ambiente.

"As três falas são muito ruins. Mas as declarações de Damares, ao incitar ação contra prefeitos e governadores, e Salles, ao propor que o governo reduza regras que dizem respeito à qualidade de vida do cidadão de forma escondida da população usando a pandemia para encobrir são piores", afirma um dos ouvidos pelo UOL. "O problema é que o ministro da Educação ofendeu os ministros do Supremo, o que tem impacto político."

"Weintraub foi tosco e violento. Mas o que Damares e Salles falaram foi mais grave. Porém, como o Supremo tem atuado como contrapeso a algumas decisões do governo e autorizado investigações, é a fala dos 'vagabundos na cadeia' que vai ficar", diz outro.

A avaliação na Procuradoria-Geral da República, segundo os ouvidos, é que Augusto Aras está em uma situação muito difícil e terá que dar alguma resposta ao final da investigação. É corrente na instituição que ele almeja a indicação presidencial para a vaga dos ministros Celso de Mello, neste ano, ou Marco Aurélio Mello, no ano que vem, no STF. Mas, mesmo querendo agradar o presidente, quem o indicou fora da lista tríplice da Associação Nacional dos Procuradores da República, também não pode ignorar tudo o que aparecer.

Nesse sentido, avaliam que Aras pode ter que pedir a Bolsonaro a cabeça de alguém em uma bandeja até o final da investigação para mostrar que não procedem as acusações de age que como advogado-geral da União. "Em uma situação de funcionamento normal de uma República, o próprio Weintraub pediria exoneração, mas não é o caso", afirmou um procurador à coluna.

Os ouvidos não viram na fala do presidente na reunião prevaricação explícita e forte o bastante para algo definitivo. "Claro que está tudo lá, implícito, e que é mais uma peça na investigação. Esse caso não vai ser resolvido com uma 'bala de prata' [uma prova inquestionável e fulminante]", diz um deles.

"O vídeo também indica que o padrão de uma prova de qualidade para o ex-ministro e ex-juiz é mais baixo", avalia outro. Ele se referia a Sergio Moro, que se demitiu acusando Bolsonaro de interferência na PF e apontou que o vídeo traria elementos que comprovam suas declarações. "Caso não apareça algo novo e considerando a popularidade do presidente, quem vai acabar dançando são apenas peixes pequenos."

Leonardo Sakamoto