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Covid: Maquiagem do número de mortos serve de teste para o de desempregados

Homem trabalha em meio às sepulturas do Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus - EDMAR BARROS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Homem trabalha em meio às sepulturas do Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus Imagem: EDMAR BARROS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

08/06/2020 17h29

Ao adotar a maquiagem de dados oficiais como remédio para reduzir os casos de covid-19, Jair Bolsonaro deixou claro que número bom é número a favor. Se tivermos duas contagens de mortos pela covid-19 a partir de agora, uma séria e uma do governo federal, o que garante que o país não passará a adotar o mesmo tratamento para a "cura" do desemprego após a pandemia passar?

O IBGE, que trata de alguns desses índices, é uma instituição de renome internacional. Mesmo assim, o presidente da República atacou mais de uma vez a metodologia de cálculo de desemprego da sua Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua. Dizia que ela estava errada simplesmente porque os números - desfavoráveis - não lhe apeteciam.

Imaginem se, em 2022, ano de reeleição, a taxa de emprego não subir na velocidade que o país precisa e ele não conseguir jogar totalmente a culpa disso nas costas dos prefeitos e governadores, como tem tentado? O que impede Bolsonaro de apoiar a criação do Instituto Olavo de Carvalho de Estatísticas Patriotas para contrapor com os dados públicos? Não importa que uma parte das pessoas não acredite. Ele precisa de 50% mais um dos votos.

Da mesma forma, quando o desmatamento na Amazônia saltou, em 2019, o presidente disse que tinha a "convicção" de que os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais eram "mentirosos" - em um processo vergonhoso que terminou com a demissão do chefe do INPE, o cientista Ricardo Galvão. O instituto é outra referência global e só não é motivo de orgulho para todos porque uma parte dos brasileiros não acredita que satélites giram em torno da Terra porque, segundo eles, ela é plana.

O que nos leva a um dos principais problemas do país: mesmo sem provas, sobram convicções para quem tem poder. Tanto que, logo depois, o governo passou a divulgar que criaria um novo sistema de monitoramento do desmatamento via iniciativa privada.

Vamos esquecer por um instante que a falta de indicadores decentes sobre a mortalidade, a letalidade e a taxa de infecção do coronavírus leva a mais óbitos e que sofrimento poderia ser evitado se gestores públicos, cientistas e profissionais de saúde tivessem esses dados em mãos.

Desconfio que há fundos internacionais e empresários, mesmo os que normalmente não preocupam se os empreendimentos que financiam estão envolvidos com danos sociais e ambientais, que pensarão um pouco mais antes de investir recursos no país. Afinal, um governo torturar dados oficiais até que gritem o que ele deseja ouvir é péssimo para quem precisa fazer o gerenciamento de risco de seus negócios.

Muitos dirão que dados da economia vem de instituições sólidas que não poderiam nunca ser dobradas de acordo com as necessidades pessoais do presidente da República.

Dizia-se o mesmo da Procuradoria-Geral da República, do Coaf, da Receita Federal, da Polícia Federal, do Ibama, do Instituto Chico Mendes, do Incra, da Funai e, até certo ponto, das Forças Armadas. Hoje, ao serem lembrados que muita coisa deixou de operar corretamente por conta das necessidades do presidente, insistem no mantra: as instituições estão funcionando normalmente.

Mas Bolsonaro não precisa acabar com índices, apenas gerar confusão. E não estará sozinho.

O general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, já disse que as taxas de desmatamento eram manipuladas e infladas porque não concordava com elas. Osmar Terra, então ministro da Cidadania, já disse não confiar em pesquisas da Fiocruz, instituição fundamental no combate à pandemia, porque não concordava com elas. O chanceler Ernesto Araújo não acredita em mudanças climáticas e já afirmou que o aumento da média da temperatura global ocorreu porque estações de medição de temperatura que estavam no "mato" hoje estariam no "asfalto". O próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, menosprezou o questionário do Censo.

O governo Bolsonaro é como um campeonato de futebol sub judice. Será lembrado no futuro não por evitar mortes, desemprego, desmatamento, mas por incluir um asterisco na contagem de tudo isso.

Leonardo Sakamoto